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NAD M33 V2

NAD M33 V2

Miguel Marques

12 julho 2026

Um «lobo» que também faz de cordeiro quando a música lhe pede


Comecei então as minhas audições, a maior parte feita através da aplicação interna acedendo ao meu servidor, mas alguns testes foram feitos com Qobuz Connect e outros com um Eversolo A6 Master Edition Gen 2 ligado por XLR, tendo sido umas KEF LS50 as colunas usadas ao longo de todo o teste. E comecei imediatamente por notar um corpo e peso nos graves que me é raro ouvir neste sistema, e que é sem dúvida uma cortesia da amplificação Classe D, tecnologia que alimenta sempre muito bem impedâncias mais baixas e, consequentemente, este espectro de frequências (sendo de notar que o próprio factor de amortecimento é indicado pela NAD como acima de 800 a 8 ohm, ou seja, uma baixíssima impedância de saída, o que também contribui muito para mais e melhores graves). Em alguns discos os graves chegaram mesmo a ser excessivos, mas o uso de esponjas nos pórticos das LS50 resolveu completamente esse problema - mas fica a nota para que se tenha cuidado com este factor.

Foto 4 NAD M33 V2

E nada melhor para destacar aqui que o clássico Kind of Blue (1959), desta vez na edição SACD da Mobile Fidelity de 2015, convertida para FLAC 24/88,2 (DR14, Pico -0,28 dB), uma masterização muito recomendada deste disco, que só tenho pena que tenha sido baseada na mix dos anos 90 de Mark Wilder, em vez da original. Em So What, percebemos logo na introdução do contrabaixo e do piano (composta por Gil Evans), o corpo e a definição dos graves, como já escrevi em cima. O mesmo acontece quando, no fim da exposição da melodia, Miles Davis começa o seu solo na trompete e Paul Chambers «arranca» para o walking bass, passando de dois para quatro, novamente com um corpo e uma definição que poucas vezes ouvi neste sistema. A trompete de Miles Davis soa timbricamente irrepreensível, embora um pouco escura, o que não é culpa do M33 V2 mas das masterizações da Mobile Fidelity, que são quase sempre muito ligeiramente contidas nos agudos (o que tem as suas vantagens). No solos de John Coltrane e Cannonball Adderley, os transientes são muito rápidos e a agressividade de ambos no tenor e no alto, respectivamente, é reproduzida sem máscaras, aveludamentos ou arredondamentos. Na exposição do tema em Freddie Freeloader noto a excelente separação instrumental entre as três vozes, percebendo-se com facilidade o que cada uma toca, e, nos solos, o hard panning de cada solista é reproduzido com fidelidade, com o tenor de Coltrane, por exemplo, bem encostado à esquerda, e o alto de Cannonball, bem encostado à direita. Dinamicamente, a descida para o solo de Wynton Kelly e para a reexposição da melodia (o único tema em que toca neste disco), é também muito bem conseguida. Na balada Blue in Green (composição de Bill Evans e não de Miles Davis, como costuma ser indicado), nota-se antes de mais a boa capacidade do NAD de reproduzir emoção, que este tema tem para dar e vender, e o belíssimo timbre de piano de Bill Evans, apesar do excesso de reverberação da gravação, excesso esse que o M33 V2 reproduz novamente sem apelo nem agravo. O contrabaixo continua a ouvir-se sempre na perfeição, o que é essencial para que se compreenda na totalidade esta harmonia tão complexa.

Foto 5 NAD M33 V2

Em All Blues percebe-se rapidamente que a suprema resolução e transparência deste NAD têm o seu preço a pagar (como se diz na economia, “não há almoços grátis”): a distorção nos microfones, novamente culpa da gravação, particularmente evidente na exposição da melodia, ouve-se sem quaisquer reservas… Já o timbre do Jimmy Cobb nos pratos, um mestre absoluto da restrição, é reproduzido na perfeição, com um timbre muito bonito e muito realista. Por fim, em “Flamenco Sketches” (co-composta por Miles Davis e Bill Evans, que mais um vez ficou de fora dos créditos, por razões que me ultrapassam), os transientes rápidos do Classe D fazem com que esta balada nunca soe arrastada, e o timbre do tenor de Coltrane e do piano do Bill Evans voltam a destacar-se (quem pensa que Coltrane não consegue ser lírico e deixar espaço nos seus solos, deve ouvir este solo com muita atenção). Um começo muito auspicioso para este NAD… Deixo em baixo uma frase de Bill Evans numa entrevista de 1979 que faz justiça à profunda contribuição que teve para um dos discos mais importantes da história do jazz, e que foi esquecida durante tantos anos, sendo muito do seu trabalho injustamente creditado a Miles Davis).

I sketched out Blue in Green, which was my tune, and I sketched out the melody and the changes to it for the guys, and Flamenco Sketches was something that Miles and I did together that morning before the date. I went by his apartment and he had liked Peace Piece that I did, and he said he’d like to do that” - Bill Evans

Mudando completamente de estilo, decidi ouvir os primeiros cinco discos dos Metallica, a banda mais pop do metal, aqui nas suas edições japonesas, que me parecem ser essencialmente flat transfers de fita para CD, sem nenhum dos artefactos das versões em «alta resolução» que populam a Internet, sendo só preciso ter cuidado porque estão todos bem acima de 0 dBFS - Kill ‘Em All (1983, 25DP 5339, DR12, Pico +0,33 dB), Ride the Lightning (1984, 25DP 5340, DR12, Pico +0,41 dB), Master of Puppets (1986, 32DP 448, DR12, Pico +0,31 dB), And Justice for All (1988, 25DP 5178, DR12, Peak +0,31 dB) e Black Album (1991, SRCS 5577, DR11, Pico +1,42 dB). A energia da banda americana foi reproduzida com toda a velocidade que esta música requer, como sempre acontece com os Classe D, o que se notou bem quando a meio de Am I Evil, a banda passa para o dobro, com o NAD a responder muito bem (também em bom plano som de guitarra de Kirk Hammett, aqui num dos solos mais melódicos). O timbre da voz de James Hetfield, ainda muito mais aguda nos primeiros discos, soa muito realista em Hit the Lights e no clássico For Whom the Bell Tolls, os sinos da introdução encheram por completo o meu espaço de audição - também o peso das guitarras de sete cordas foi reproduzido sem quaisquer restrições dos graves (já agora, este tema foi directamente inspirado pelo romance homónimo de Ernest Hemningway, sobre a brutalidade da guerra civil espanhola, que em português se intitula Por Quem os Sinos Dobram, a mostrar que ainda há boas traduções, e que por sua vez rouba o seu nome a um poema de 1624 do poeta inglês John Donne, o que faz com que a história deste tema tenha 360 anos…). Os transientes rápidos voltam a ser o destaque em Master of Puppets, sendo impossível não bater o pé, com um PRaT (pace, thythm and timing) ao nível do melhor que já ouvi - já em And Justice for All, o palco do «jogo» de tímbales de Lars Ulrich é também tocado de forma clara, com o «salto» entre as duas colunas a ser muito realista, assim como o timbre da tarola, e exactamente o mesmo se passa em Sad but True. Em resumo, ao final de muitas horas a ouvir estes discos, que conheço de ginjeira, posso afirmar sem dúvida que o PRaT deste NAD está ao nível dos melhores que já ouvi (excluindo sistemas High-End, claro). E, mais uma vez se notaram também algumas das insuficiências destas gravações, que não são, de todo, gravações audiófilas.

Foto 6 NAD M33 V2

Para terminar, decidi enveredar pela música erudita e pela versão de Peter and the Wolf, do compositor russo Serguei Prokofiev (fica aqui uma pequena nota: em Portugal confunde-se muitas vezes Peter and the Wolf, composição de Prokofiev, cujo objectivo era ensinar às crianças o som de cada instrumento da orquestra comparando-os com animais e sons da natureza, com The Boy Who Cried Wolf, a fábula de Esopo que nos ensina os muitos perigos das mentiras recorrentes, sendo que se chama muitas vezes Pedro e o Lobo, erradamente, à fábula de Esopo). O século XX foi um século curioso para a música erudita, com muitos movimentos vanguardistas (inclusive na Rússia, como Stravinsky) e com os movimentos antagónicos que se seguiram, com um regresso a música mais simples, melódica e acessível (muitas vezes por inspiração política). É esse o caso de Peter and the Wolf, umas das melodias mais cantabile do século XX, secundada por uma harmonia sofisticada e mais apropriada para o ano de 1936, e esta versão da Filarmónica de Los Angeles, com condução de Gustavo Dudamel e narração da actriz Viola Davis, é maravilhosa (edição de 2026, na Deutsche Grammophon, cortesia do Qobuz), tendo sido gravado no anfiteatro Hollywood Bowl, em 2021. A voz de Viola Davis, bastante grave para uma voz feminina, é reproduzida com muita clareza, o que é um bom prenúncio para uso deste NAD com uma televisão ou em sistemas de cinema em casa. Também a orquestra é muito bem representada, com bons timbres, excelentes dinâmicas para a gama de preço do M33 V2 e o palco é grande, particularmente em largura, mas coeso, com boa imagem central. Notei também aqui outra característica interessante deste amplificador: não precisa de tocar alto para «acordar» e soar bem, mostrando todas as suas qualidades, inclusive dinâmicas, a volumes moderados. A prova de fogo para um produto da alta-fidelidade é quase sempre a música erudita e o M33 V2 passou o teste com distinção! (já agora, para os que tenham crianças ou para os adultos que gostem destas coisas, a Gulbenkian organiza por vezes concertos comentados para família desta obra, que se recomendam vivamente).

Quando à saída de auscultadores, soou-me tão neutra e transparente quanto tudo o resto. Com uns Sennheiser HD700, passei diversas noites a ouvir música de todos os géneros e, dentro da minha limitada experiência nesta área, não detectei nenhuma falha digna de registo, com boa sensação de espacialidade, graves com corpo e definição, médios muito lineares e agudos com extensão e resolução. Como senti sempre ao longo deste teste, todos os elementos do M33 V2 parecem ter sido pensados com muito atenção e detalhe, nunca se tendo a sensação de que algo tenha sido feito apenas para acrescentar mais uma função ao produto. Não creio que esta saída auscultadores substitua verdadeiramente um produto dedicado a isso, nem tal poderia ser possível num tudo em um nesta gama de preço, mas é uma excelente adição e parece-me que muitos clientes deste NAD desfrutarão muito desta saída de auscultadores quando não for possível ouvir música pelas colunas.

Na prática, este M33 V2 é um produto completamente isento de quaisquer falhas relevantes - como referi acima gostaria de ter visto uma entrada de rede SFP; os dois vuímetros que o ecrã mostra quando se usa a entrada analógico não são assim tão bonitos, especialmente quando comparado com o quão bonito o ecrã fica quando se usa o streamer interno e a capa do álbum é mostrada, seria óptimo ter mais (e melhores) alternativas, embora a opção de mostrar apenas informação seja bastante agradável; de um ponto de vista muito pessoal, adoraria ver igualização paramétrica e UPnP (mas a igualização presente, com um controlo para graves e outro para agudos, funciona bastante bem, não tendo conseguido perceber se existe alguma função auto-gain presente); e a aplicação ganharia muito se mostrasse imagens de artistas na sua biblioteca. Mas tudo isto são meros detalhes, num produto com as muitas qualidades sonoras deste M33 V2.

Conclusão


Quanto mais escrevo sobre alta-fidelidade, ou melhor, quantos mais produtos testo, mais claro fica a muita diversidade dentro da indústria, partindo de diferentes ideias e conceitos sobre o que é «soar bem», e mais claro fica também que tipo de produtos gosto mais ou menos, sendo que tento sempre remover o meu gosto pessoal de cada teste, pelo menos tanto quanto possível. E neste caso não foi nada fácil, porque este M33 V2 junta num só pacote muitas das coisas que mais gosto na alta-fidelidade: um DAC moderno de topo, o ES9039, uma secção de préamplificação com saltos precisos de 0,5 dB, acompanhado por um controlo remoto simples, bonito e ergonómico (ainda não tinha referido este componente tantas vezes negligenciado, aqui muito condizente com o preço); e uma secção de potência Classe D, absolutamente neutra e sem coloração, como por vezes acontece com os mais recentes Classe D GaNM.

Foto 7 NAD M33 V2

Ao longo das semanas em que tive o prazer de desfrutar deste NAD, fiz audições muito profundas e diversificadas, que não pude detalhar aqui por razões de espaço, e notei sempre um palco grande, particularmente em largura, sem nunca perder coesão, graves profundos e definidos, coesão e neutralidade de frequências em toda a gama de frequências, um PRaT magnífico, excelente desempenho dinâmico e, acima de tudo, muita resolução e transparência, com um fundo muito escuro que ajuda o sistema a «desaparecer» e tendo sido muito difícil notar qualquer «cor» - o M33 V2 é o resultado dos ganhos tecnológicos dos últimos dez anos e que se traduz num SNR (signal to noise ratio) de 120 dB, um figura impressionante, e que nos dá um bem mais que pequeno cheirinho de High-End, a um preço muito mais moderado. O maior senão de toda esta transparência e resolução é que tudo o que estiver na música que este amplificador tocar, de bom e de mau, vai ser reproduzido - não é um amplificador amigo de más gravações e / ou más masterizações. Mas ninguém compra um carro de topo para lhe pôr Gasolina 95… Servindo-lhe música de boa qualidade (leia-se, gravação e masterização, as edições BN85 em CD da Blue Note masterizadas por Kevin Gray, por exemplo, que acabaram por não ser referidas anteriormente, soaram maravilhosas), o NAD recompensa-nos com um som do qual me parece ser muito difícil não gostar, mesmo que para alguns possa requerer alguma habituação, e que para mim representa o verdadeiro significado de Alta-Fidelidade.

O M33 V2 não é barato, embora, nos dias que correm, também não seja caro, mas a NAD não enveredou por nenhum atalho neste produto, o que tantas vezes acontece nos tudo em um. Para quem busque um integrado a que se acrescente apenas colunas, e prefira transparência, velocidade, resolução e neutralidade a sons mais quentes, lentos e idealizados, é absolutamente obrigatório ouvir este M33 V2. Se tivesse UPnP e equalização paramétrica, já não regressava à Esotérico, e esse é o maior elogio que posso fazer a este NAD - para quem não precise desses dois pormenores (e sei que a maioria dos audiófilos não precisem nem de um nem do outro), posso recomendar este NAD sem quaisquer reservas, tendo superado em performance técnica diversos produtos significativamente mais caros que já tive oportunidade de ouvir neste sistema. Muitas vezes tenho escrito que prefiro separar a secção digital e a secção analógica, em vez de usar um tudo em um, mas o M33 V2 fez-me sem dúvida questionar as minhas assunções… Chapeau, NAD!

PS - Queria deixar um agradecimento ao Alberto Silva, da Esotérico, e ao Cas Oostvogel, do grupo Lenbrook, por terem respondido às minhas muitas perguntas - facilitaram em muito a minha compreensão de um produto com tanto para explorar como este, e tornaram este teste muito mais completo.

Amplificador integrado NAD Masters M33 V2
Preço             6199 €
Contacto       Esotérico