
Uma «pérola escondida» do mundo da alta-fidelidade.
Num disco essencialmente de cordas e voz é muito difícil de medir transientes, e decidi então socorrer-me não de um mas de vários discos de trio de piano (um dos melhores instrumentos para medir transientes, dada a sua natureza percussiva) para avaliar melhor essa característica do 800.2. Segue então em baixo a lista dos discos escutados:
1) Brad Mehldau - Introducing Brad Mehldau (1995, DR15, Pico +0,28 dB, 16/44,1, Warner Bros, masterização de Greg Calbi)
2) Bill Charlap - Street of Dreams (2021, DR14, Pico 0 dB, 16/44.1, Blue Note, masterização de Mark Wilder)
3) Bill Charlap -All Through the Night (1997, DR14, Pico +0,26 dB, 16/44,1, Criss Cross, masterização de A.T. Michael MacDonald)
4) Bill Evans - Waltz for Debby (1961, DR14, Pico +0,30 dB, Riverside, versão SACD-SHM convertida para 24/88,2) e Sunday at the Village Vanguard (1961, DR14, Peak +0,48 dB, Riverside, versão SACD-SHM convertida para 24/88,2), dois álbuns que na prática são um só (já agora, tal como referido acima para a versão Mobile Fidelity de Where Are You, estas edições SACD-SHM destes dois álbuns são o pináculo de todas as que ouvi até hoje e recomendam-se vivamente).
5) Red Garland - Red Garland’s Piano (1957, DR15, Pico +0,23 dB, Prestige, remasterização de Joe Tarantino, na que foi a primeira e melhor edição digital deste grande disco, temos aqui mais um CD bem superior à versão de alta resolução)
6) Matt Slocum - Sanctuary (2019, DR12, Pico -0,53 dB, 24/96, Sunnyside Records, masterização de Scott Hull, com Gerald Clayton ao piano)

Ao longo destes discos fui conseguindo perceber que o 800.2 é, sem dúvida, um amplificador de som muito claro, aberto e musculado, que não se esconde atrás de quaisquer aveludamentos - os transientes são sempre muito marcados e presentes. Claro que tudo isto depende também de muitos outros factores: a intensidade dos próprios instrumentistas (Brad Mehldau, por exemplo, não é propriamente famoso por ser «meigo» com os seus pianos), a produção do disco (Sanctuary, por alguma razão, soou mais suave que os restantes, assumo que tenha algo a ver com a produção), o resto do sistema (o Lina estava a funcionar em modo PCM em vez de modo DSD, por exemplo, o que acentua os transientes), a sensibilidade auditiva de cada ouvinte e / ou as características acústicas do próprio espaço (nomeadamente, distância entre a posição de escuta e as colunas). De qualquer forma, e sendo um sistema que conheço bem, particularmente as colunas, posso afirmar com segurança que o 800.2 possui as características mencionadas em cima, sendo um amplificador muito realista na sua apresentação (o que se notou não apenas no piano mas também no contrabaixo e na bateria). Tal como referido no primeiro disco, tantos os timbres como a apresentação espacial foram novamente irrepreensíveis.
Para variar um pouco, passei em seguida para o disco Naquele Tempo (2009, DR14, Pico +0,08 dB, GSP Recordings), um dos últimos da obra do virtuoso violonista franco-tunisino Roland Dyens (de quem se dizia ter «mãos de músico clássico e mente de músico de jazz», afirmação que a sua carreira viria a provar verdadeira). Neste disco Dyens debruça-se de forma sublime sobre a música de Pixinguinha, um dos nomes maiores do choro brasileiro, com o 800.2 revelar-se soberbo nestas faixas mais íntimas, destacando Oscarina, com o delicado timbre da guitarra de Dyens a ser reproduzido magnificamente, com dinâmicas perfeitas e a sensação de termos Dyens de volta ao mundo dos vivos, tal é a capacidade de transmitir emoção do 800.2.

Mudando radicalmente de estilo, virei-me para os The White Stripes, criação dos irmãos Jack White e Meg White no final dos anos 90 e um dos poucos fenómenos rock do século XXI que merece escuta atenta, na minha modesta opinião (o fenómeno indie rock causa-me muito pouca simpatia quando comparado com tantas excelentes ofertas destes estilo de música nas décadas precedentes). O problema na relação entre os White Stripes e a alta-fidelidade são os níveis indignos de compressão aplicados aos seus discos, particularmente indignos quando se sabe que esta banda grava muitas vezes tudo em analógico - é mesmo só vontade de estragar um bom produto… Felizmente, em 2023, a Analogue Productions veio salvar o dia e reeditou Elephant (2003, V2 Records), provavelmente o disco mais famoso da banda, e em SACD (DR12, Pico -0,73 dB, conversão de DSD para PCM 24/88,2) - e fê-lo com excelente gama dinâmica, cuidado com os picos no domínio digital e uma boa masterização de Ryan K. Smith, do famoso estúdio Sterling Sound em Nova Iorque, directamente da fita digital para DSD (e ainda há muita música para ser salva, esperemos que a Analogue Productions continue!). E a combinação da qualidade da masterização com as qualidades do 800.2 volta a ser excelente, dando a sensação de ouvir este disco pela primeira vez, e a mostrar mais uma vez que não chega só preocuparmo-nos com a qualidade do sistema ou do tratamento acústico, o que «metemos» no sistema também conta e muito… Logo na abertura, com o intemporal Seven Nation Army, hoje em dia hino comum de claques de futebol, num irónico elogio ao quão cantabile o riff deste tema é, o bombo da bateria de Megg White surge com uma pujança que poucas vezes ouvi nestas Dyptique, a mostrar a excelente combinação da tonalidade mais presente e marcado do 800.2 com o rock. Ao longo do resto do tema, os crescendos e os diminuendos ecoam com um realismo inexcedível, e os timbres das várias guitarras soam sujos, distorcidos e low-fi, exactamente como Jack White gostaria (características que se voltam a repetir mais à frente em Ball and Biscuit). Nos temas acústicos You Got Her in Your Pocket e It’s True That We Love One Another, voltamos a ter a sensação, como no disco anterior, de ter Jack White na nossa casa, à nossa frente, a cantar e a tocar guitarra só para nós - o que mostra bem o envolvimento emocional que o 800.2 proporciona.

Seria impensável ter aqui um amplificador deste calibre e não testar a sua prestação com uma orquestra de música erudita, tendo escolhido para isso a minha faixa de referência - o sobejamente conhecido maestro austríaco Herbert Von Karajan, condutor da Filarmónica de Berlim durante décadas, a presentear-nos aqui com doze minutos e meio do primeiro prelúdio da ópera Tristão e Isolda, do compositor romântico alemão Richard Wagner (tendo tido aqui um problema com o meu servidor, socorri-me do Qobuz, onde encontrei esta versão num disco da Warner Classics), para mim os melhores doze minutos da história da música erudita. As dinâmicas, prova de fogo maior de um integrado que já se aproxima e território high-end, foram soberbas, com todo o micro detalhe da orquestra alemã a ser reproduzido imaculadamente, sendo possível ouvir com nitidez até os mais subtis diminuendos ou crescendos. Os timbres de todos os instrumentos mantiveram-se em nível muito alto, como em discos anteriores, tendo sido possível também aqui medir as superlativas capacidades do 800.2 a representar escala - e o 800.2 soou massivo nos picos orquestrais, com um palco soberbo e a sensação real de termos a totalidade da massa sonora da orquestra mesmo diante de nós, e quem já teve a sorte de presenciar uma orquestra desta dimensão ao vivo e a cores de perto (por vezes há ensaios abertos, para os interessados, é investigar) sabe bem o impacto sonoro e emocional que causam, e o 800.2 foi inexcedível na reprodução dessa escala orquestral, tendo ficado na minha memória como uma referência para testes futuros nesta gama de preço.

Foi também aqui perceptível para mim outra característica deste 800.2: apesar de ser um amplificador de grande potência, o circuito foi desenhado com relativamente pouco ganho global (um pouco acima de 30 dB, como se pode ver no fim deste artigo, valor relativamente baixo para um integrado, sendo curioso notar que no 600.2, o irmão mais novo do 800.2, a Musical Fidelity acrescentou 6 dB de ganho), o que levou a que o meu volume se fixasse abaixo dos -10 dB (dado que esta faixa tem momentos muito lá em baixo, no que toca a volume) e isto numa sala relativamente pequena e alimentando o 800.2 com a totalidade dos 6 V da pujante saída XLR do dCS Lina DAC X (sendo que muitos DACs ou streamers apenas debitam 4 V pela saída XLR, ou mesmo 2 V). Fica portanto a nota, a potência de saída não é o único número a ter em conta e, para quem queira alimentar uma sala maior será útil preceder o 800.2 com um componente com uma saída puxadinha em termos de tensão (pelas conversas que mantive com a companhia, o 800.2 aguenta até 16 V nas suas entradas XLR) - sendo ainda relevante referir que as DP140 Mk II apresentam uma sensibilidade relativamente baixa de 87 dB, o que também contribuiu para a maior necessidade de puxar pelo volume deste integrado em faixas com momentos mais delicados.