
O som digital mais analógico que já ouvi.
Audições
O Oladra foi inserido no meu sistema habitual, formado pelo conjunto de electrónica Inspiration 1.0, da Constellation, substituindo o Roon Nucleus Plus, alimentado pela fonte de alimentação Ferrum Hypsos, inicialmente com o iFi Audio Pro iDSD como descodificador D/A e renderer de MQA (descodificação completa) e em seguida tendo na mesma posição o conversor / streamer dCS Lina; e ainda o leitor de CD Accuphase DP-85, ligado ao mesmo conversor D/A da iFi Audio. No domínio analógico brilhava o gira-discos Basis com braço SME V Gold e cabeça Air Tight PC1 Supreme, sendo o prévio de gira-discos o Nagra CLASSIC Phono. As colunas eram as Diptyque DP 140MkII e os cabos de interconexão eram predominantemente da gama Select, da Kimber, com o AudioQuest Thunderbird ligado entre o iFi Audio Pro DSD e o prévio da Constellation e o novo cabo de Ethernet ChordMusic topo de gama na ligação de Ethernet ente o Silent Power e o Oladra. Na alimentação de sector pontuava a régua Vibex Granada Platinum, à qual ligavam todos os equipamentos electrónicos em uso, sendo o amplificador de potência da Constellation alimentado através do cabo Tiglon TPL-2000A. O Silent Power LAN iPurifier Pro, acompanhado pelo cabo de Ethernet AudioQuest Cinnamon, tomou conta das ligações à Internet. Foram ainda feitas algumas audições utilizando o amplificador integrado Musical Fidelity Nu-Vista 800.2, que está presentemente em teste.

E começo por dizer que esta oportunidade de testar o servidor da Antipodes transformou-se numa verdadeira «festa digital». Desde streaming directo através do dCS Lina usando UPNP com o Bubble e tendo como origem música armazenada num servidor NAS, à troca do DAC iDSD Pro pelo dCS Lina, ao experimentar das diversas saídas do Oladra, com especial enfoque na comparação entre USB2 e AES/EBU, mais outras comparações entre vários dos meus ficheiros reproduzidos através do disco SSD interno ou de um SSD externo de 2 TB, valeu tudo! Acabei por assentar, como já disse, na utilização do Lina como DAC, ligado ao Oladra pela entrada AES/EBU, utilizando um cabo Kimber digital de prata KS2120, por me parecer que foi a configuração em que consegui a melhor performance do Oladra. As diferenças entre as saídas USB e AES/EBU do Oladra não foram do dia para a noite e até dependiam do tipo e formato da música a ser reproduzida mas, no final, senti que utilizando a última saída mencionada tudo ficava mais equilibrado, quiçá mesmo um pouco mais analógico, por estranho que pareça ser utilizar este termo numa fonte puramente digital.
Mas a ideia subjacente a esta oportunidade era ouvir música e por isso, quando tudo «acalmou» chegou finalmente o momento de relaxar e usufruir do prazer emocional de escutar trechos, alguns bem conhecidos e outros menos. E menciono para já a faixa Please Send Me Someone To Love, do disco A Garland of Red, de Red Garland, numa edição com remasterização digital efectuada por Joe Tarantino nos estúdios Fantasy. Basta ouvir aquela monumental entrada de piano para percebermos que vamos ouvir algo de excepcional. E tudo se passa a um nível superlativo de ai em diante, quer nos encantadores diálogos entre contrabaixo e piano quer nos timbres sublimes dos instrumentos, quer ainda no fabuloso arejamento e espacialidade que se «passeia» por esta faixa. Quem tiver possibilidades de a apanhar que não a deixe escapar.
Cito agora Frank Sinatra, interpretando Where Are You. Tinha na minha frente uma voz prodigiosa de Sinatra que nunca me tinha sido apresentada: cálida, com inflexões românticas até mais não, uma tridimensionalidade global de nos deixar de boca aberta perante uma orquestra ao mesmo tempo a soar tão natural, desde as cordas aos graves mais marcantes. Uma delícia de ouvir nesta remasterização da Mobile Fidelity que teve lugar nos estúdios da etiqueta e é um dos melhores trabalhos publicados por esta editora, isto no meu entender – já ouvi outras coisas, tais como o álbum Abraxas, dos Santana, que não me convenceram mesmo nada.

E que tal o disco Sunday at the Village Vanguard, de Bill Evans, de que destaco a faixa Gloria’s Steps? O disco foi gravado originalmente ao vivo no Village Vanguard, e mais tarde masterizado em K2 a partir das fitas analógicas originais por Alan Yoshida, da JVC, um extraordinário «artista» na área da edição em estúdio e que tive o prazer de conhecer há cerca de 20 anos quando de uma das convenções da EISA que teve lugar em Genebra. Ouvi-a com extremo prazer e tornei a ouvi-la na versão SACD SHM, masterizada originalmente por David Jones e muito provavelmente passada para DSD a partir de uma fita original, e o Oladra mostrou com evidência todas as nuances, por mais pequenas que fosse, resultantes de dois trabalhos e dois mestres diferentes e uma musicalidade mais evidente, com a primeira versão mencionada a trazer a música um pouco mais para a frente, mesmo ali para «ao pé de nós».
Alando agora de uma outra área da minha predilecção, menciono aqui a audição da obra Scherezade, de Rimsky-Korsakov, interpretada pela orquestra de Kirov, dirigida por Valery Gergiev. A entrada desta peça é imponente, plena de energia, com Sergei Levitin, no violino, a ter uma interpretação soberba em termos de velocidade de execução e da criação de um verdadeiro rodopio de notas musicais quase estonteante. A música russa tem um conjunto de características que a distinguem, nomeadamente a velocidade de execução, e quando tocada e dirigida por músicos e maestro da mesma nacionalidade fica ainda mais inebriante. Cerca dos sete minutos, esta peça atingiu níveis energéticos notáveis, chegando a ser difícil de aceitar como é que os músicos conseguem conjugar de tal modo energia e velocidade. E o Oladra, acolitado pelo Lina, apresentou-me tudo isso na minha frente com uma naturalidade eivada de imponência que me deixou perfeitamente rendido, e isto a partir de um original DSD64. Para os que se queixam de alguma falta de energia por parte do DSD não está mal!

Embora aceite que terei incido esta minha análise de um modo preferencial sobre o tema jazz, não me penitencio por isso. Tal aconteceu não só na decorrência de ser um dos géneros musicais de mais gosto, como ainda do facto de ter comigo algumas gravações muito especiais a que o Oladra conferiu uma relevância marcante. E que mais se pode pedir quando a audição crítica de um equipamento nos recompensa com este nível de prazer?
dCS Lina DAC X
Chegado até mim para acolitar o Oladra, o O Lina DAC X é a mais recente adição à linha de produtos dCS: um leitor de música em rede que oferece um som excepcional e um acesso conveniente a um vasto catálogo de música. O Lina DAC X foi concebido para ouvintes que desejam a conveniência da reprodução digital combinada com uma experiência auditiva profundamente natural e envolvente. Oferece a mesma gama de características do premiado Lina Network DAC, bem como alguns benefícios adicionais, incluindo um mostrador de volume físico, controlo remoto por infravermelhos, suporte para streaming de alta resolução através da QQ Music e a opção de ligação a transportes de CD/SACD para reprodução de discos prateados.

Um leitor de rede completo, o Lina DAC X funciona com a aplicação dCS Mosaic (disponível para iOS e Android) e suporta streaming de alta resolução de todas as principais plataformas, incluindo TIDAL, Qobuz, Spotify e QQ Music, bem como software de gestão de música como Roon, Audirvana e JPLAY. Possui também uma variedade de entradas físicas para suportar a reprodução de diversas fontes, incluindo TVs (via TOSLINK), computadores, transportes de CD e servidores.
O DAC X pode ser ligado a qualquer amplificador, incluindo directamente a amplificadores de potência ou colunas activas, para criar um sistema completo de reprodução de música. A sua arquitectura flexível tem amplas possibilidades para futuras actualizações, permitindo melhorar o desempenho e adicionar novas funcionalidades ao longo do tempo. Esta é uma parte essencial da experiência dCS, com os ouvintes a receberem actualizações gratuitas de produtos através da internet.
Sonicamente, oferece uma clareza excepcional e uma notável recuperação de detalhes, trazendo aos ouvintes um som profundamente natural e musical. Isto é possível graças às tecnologias exclusivas da dCS, incluindo o Ring DAC — o sistema de conversão D/A patenteado pela marca - e a plataforma de processamento digital. Está equipado com vasto conjunto de entradas digitais - duas AES/EBU por ficha XLR que aceitam sinais de áudio com frequências de amostragem desde 44,1 a 192 kHz que podem ser utilizadas em modo duplo para chegar aos 384 kHz, uma S/PDIF por ficha BNC (44,1 a 192 kHz), uma S/PDIF por RCA (44,1 a 192 kHz), uma Toslink (44,1 a 96 kHz), uma USB tipo B (PCM desde 44,1 a 384 kHz e DSD até DSDx2 no modo assíncrono) e mais USB tipo A para discos externos. As saídas estão duplicadas – modo balanceado (XLR) e single-ended (RCA).
Conclusão
Voltando ao título que escolhi para este texto, como se consegue descrever que um determinado som é analógico? Já vi muita coisa falando sobre o que é som analógico, ou o som do vinil(o) como muitos lhe chamam, nalguns casos perorações de pouca validade, noutros tentativas de descrever o conceito em termos científicos.
Tudo tem o valor que tem mas, para além dos meus mais de cinquenta anos dedicados à audição de música nos mais diversos formatos, a leitura do mais recente livro de António Damásio que me foi oferecido como prenda de Natal, dedicado em grande parte à análise do que são os sentimentos e do que é a consciência, quase num jogo entre o ovo e galinha, fez-me virar as minhas atenções para definições que nós consideramos como escritas na pedra mas que, vendo bem, talvez não o sejam tanto. De facto, coisas como emoções, sentimentos, sensações, consciência, jogam entre si de forma tão complexa em função da informação retirada do nosso âmago, do que nos rodeia ou por nós transmitida para o mundo exterior numa lógica de entrada / saída, que é muitas vezes difícil perceber como foram consolidadas opiniões que temos.

Gostar de algo implica reconhecer nesse algo qualidades, defeitos e muitas mais coisas, resultado de uma convivência mais ou menos prolongada. Por isso, quando alguém confere, como neste caso, a sons que ouve a classificação de analógicos ou quase iguais a analógicos, significa que lhes está a atribuir qualidades, sensações, emoções que a sua audição, e não só, foi transmitindo ao longo do tempo. Assim sendo, como posso eu definir um som analógico? Se querem que lhes diga nem me atrevo a definir um conjunto mais ou menos vasto de características que definam de maneira concreta o que é tal, nem conheço ninguém que o tenha feito. Alguns podem falar em calor, outros em musicalidade, outros ainda em harmonia ou espacialidade mas estou certo de que para cada um haverá um conjunto diferente de qualidades que poderá incluir em diferentes proporções as qualificações atrás referidas, quase como que numa boa receita de culinária.
Tudo isto está muito bem mas cai sobre mim a grande responsabilidade de ter que dar o meu melhor para fazer com que quem me lê compreenda porque é que uso determinadas qualificações, sob pena das minhas avaliações perderem validade. Fazendo então um esforço, que os meus leitores merecem, poderei dizer que o Oladra me soou como o equipamento digital mais próximo do analógico que alguma vez ouvi porque, em comparação com o meu Basis Gold Debut, com braço SME e cabeça Air Tight PC1 Supreme, as sensações que tive em termos dos timbres dos instrumentos, da sua colocação espacial, vulgo imagem sonora, dos tempos de ataque, da delineação das notas e, aspecto mais importante, da maneira como o som que chega até nós nos atrai e nos providencia quase como que um insustentável nível de musicalidade, parafraseando Kundera - senti que quase não havia diferença sensorial ou emocional entre as duas diferentes aproximações à reprodução da música. Chegará isto para que quem me lê compreenda o que senti? Sinceramente espero que sim e que isso os motive a ir ouvi-lo e o aprecie tal como eu o apreciei. Se assim for darei o meu trabalho de escrita como recompensado.
Servidor de música Antipodes Oladra
Preço 34 900 € (com disco SSD de 4 TB)
Conversor D/A/streamer dCS Lina DAc X
Preço 14 750 €
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