
O som digital mais analógico que já ouvi.
Já há algum tempo que o Oladra, da Antipodes Audio, vinha chamando a minha atenção, principalmente porque se trata de algo mais que um DAC, um streamer, um NAS. Aquilo que o Oladra é é um servidor, ou seja, para além de armazenar música internamente, congrega em si todos os serviços de acesso a música e os ficheiros que possamos ter e distribui música para o sistema.
A Antipodes Audio está sediada na deslumbrante Costa de Kapiti, na Nova Zelândia. Tal como a Austrália, a Nova Zelândia está nos antípodas de Portugal e outros países europeus, ou seja, no ponto mais distante cruzando o centro da terra. Embora tão distante dos grande centros onde o áudio tem grande preponderância, a Nova Zelândia adquiriu uma presença relativamente importante na indústria do áudio, pois foi de lá que surgiram marca prestigiadas nos tempos mais recentes, tais como Perreaux, Plinius, The Wand, Pure Audio e, mais recentemente, Java Hi-Fi, que desde há algum tempo marcam presença no show de Munique, agora Viena. O início da Antipodes remonta a um pouco mais de 20 anos, tendo Mark Jenkins, o fundador e agora CEO da marca, começado por virar as suas atenções para os cabos de áudio. Mas rapidamente concluiu que não era o que mais lhe agradava e virou-se para o campo do áudio digital, tendo actualmente a Antipodes uma gama já bem interessante de produtos nessa área, nada menos de cinco servidores / streamers.

No que se refere à gestão de ficheiros digitais de áudio, no meu caso rendi-me facilmente ao Roon assim que pude trabalhar com ele em profundidade e não prescindo deste software para aceder a música no formato digital. Tenho depois dois servidores NAS, melhor dizendo 3, contando com o do Miguel, aos quais vou buscar música sempre que pretendo ter acesso a gravações especiais ou ainda a algumas que não existem no Qobuz. E estou bastante satisfeito com esta solução que tem já algo como quase sete anos. Mas o Oladra vai vários passos além do Nucleus+ que utilizo para gerir o Roon, não só por ser um equipamento dedicado com uma clara separação interna de funções, como por possuir capacidade de armazenamento interno para três discos SSD de 2,5 polegadas. Com as capacidades máximas que este tipo de discos atinge facilmente hoje em dia, da ordem de 4 ou 8TB, dependendo do fornecedor (e da sua disponibilidade e preço porque o brusco aumento de preço das memórias fez com que os discos SSD tenham subido de preço de maneira astronómica e sejam cada vez mais difíceis de arranjar) é possível ter dentro do Oladra um conjunto enorme de ficheiros de música, mesmo que se seja muito ambicioso, como é o meu caso que já estou nos 8 TB!
Mas vamos então perceber um pouco melhor em que é que consiste este equipamento para gestão e distribuição de ficheiros de áudio no formato digital…
Descrição técnica
O Oladra tem uma caixa externa de extremo bom gosto, com cantos arredondados e um painel frontal minimalista que como possibilidade de controlo ostenta apenas um botão circular de grandes dimensões. O interior está seguramente bem «artilhado» e o alumínio da caixa, disponível nas cores preta ou prata, é bem espesso, pois o peso total é de 20 kg. Três pés de formato arredondado permitem equilibrar a caixa, isolar vibrações e assentá-la facilmente quer sobre uma mesa quer, com algum cuidado, no topo de outro equipamento do sistema.
A designação Oladra deriva de uma palavra grega relativamente obscura que significa rebelde, fora-da-lei ou, de uma maneira mais suave, «fora da caixa». E este nome surgiu a Mark Jenkins pouco tempo depois de ter concretizado o seu sonho de desenvolver uma fonte de alimentação comutada extremamente rápida e que obviasse os principais problemas deste tipo de fontes, nomeadamente a radiação de harmónicas de alta frequência que prejudicam a limpidez do sinal de áudio. Isto depois de ter posto de parte as fontes analógicas convencionais por, em seu entender, serem demasiado lentas e obrigarem à utilização de transformadores de alguma dimensão que têm sempre algumas perdas de fluxo magnético e podem induzir tensões parasitas nos circuitos electrónicos próximos deles. A Antipodes designa a topologia utilizada na sua fonte de alimentação por «comutação em tripla cascata» porque envolve três circuitos de regulação ligados em série. Cada um dos andares destas fases de regulação, cuidadosamente isolados uns dos outros, utiliza uma topologia diferente, e os transformadores são muito mais pequenos do que os das fontes lineares porque funcionam a uma frequência muito mais elevada que os 50 ou 60 Hz da tensão de sector.

O Oladra alberga três mecanismos de processamento personalizados separados, um para cada etapa. Isto contrasta com a abordagem mais comum, que utiliza um único computador básico com placas adjacentes especializadas para melhorar o sinal digital que vai para o DAC. O primeiro destes mecanismos é um servidor, com 64 GB de RAM numa plataforma V7H de alta capacidade, com uma CPU dedicada. O servidor comunica com o leitor (player) através de uma ligação de altíssima velocidade e utiliza a Plataforma V7X de média capacidade da Antipodes Audio, recorrendo a outra CPU dedicada com 8 GB de RAM. Estes dois «módulos» são ligados entre si através de uma interface de transmissão com isolamento galvânico que liga igualmente ao reclocker integrado do Oladra, o qual possui os seus próprios circuitos de regeneração e relógio. Os sinais digitais processados são referenciados a clocks com uma precisão de femtosegundos e um erro de fase muito baixo, controlados por um cristal inserido numa estrutura selada com temperatura controlada (estufa), antes de serem enviados para o conversor D/A externo – o Oladra não inclui os andares de conversão para analógico O reclocker é gerido por uma estrutura FPGA e a tensão de alimentação deste delicado circuito é filtrada e desacoplada através de um supercondensador de grafeno, uma tecnologia de fabricação de condensadores relativamente recente que consegue atingir uma eficiência de 150 Farads por grama e permite produzir condensadores de alta capacidade com tensões de funcionamento bem mais elevadas que os habituais 5 ou 12 V dos supercondensadores normais. Os processadores utilizados pela Antipodes são ajustados ao nível do chip para gerir o ruído e maximizar a largura de banda do sinal digital. Isto porque, segundo a marca, a geração de sinais quadrados precisos requer uma largura de banda muito ampla, e tentar corrigir o ruído após se ter produzido o sinal digital reduz a largura de banda. Deste modo foram desenvolvidos circuitos capazes de trabalhar numa elevada largura de banda para estabilizar o sinal durante, pelo menos, sete ou mais harmónicas acima da frequência base, estando esta relacionada com o bit-rate que está a ser utilizado.
Em termos de conectividade, as opções do Oladra são bem abrangentes. Da esquerda para a direita, encontramos na traseira ligações Word Clock (por ficha BNC), AES/EBUpor XLR e um conjunto de três conectores coom saídas no formato S/PDIF equipadas, respectivamente, com conectores BNC, coaxial (RCA) e Toslink. As opções I2S estão disponíveis através das portas RJ45 e HDMI, e, acima destas, temos ainda uma saída USB-A dedicada para áudio. Outro conjunto de portas disponibiliza opções de rede RJ45 (2,5 Gigabit) e USB-A, um conjunto idêntico de portas para streaming directo e duas portas USB-A e uma HDMI para manutenção.

Neste painel traseiro, temos igualmente três ranhuras (slots) para discos rígidos de 2,5 polegadas, as quais, em face das disponibilidades actuais de discos magnéticos e SSD no mercado, permitem obter uma generosa capacidade interna de armazenamento interno de até 24 TB, o que dá para uma colecção de música e peras! O Oladra que tive em teste vinha equipado com um disco SSD SATA Samsung EVO de 4 TB. Os discos rígidos podem ser instalados pelo utilizador e o processo é simples e não requer ferramentas. O servidor / streamer Oladra suporta uma vasta gama de resoluções de reprodução através das suas diversas opções de conectividade. Começando pela saída USB 2.0, o Oladra é capaz de enviar para o exterior PCM até 32 bits/768 kHz, DSD no formato DoP até DSD256 e DSD nativo até DSD512. Os conectores S/PDIF (BNC, RCA e Toslink) suportam resoluções até 24 bits/192 kHz e DSD até DSD64. A saída AES/EBU (AES3) XLR disponibiliza PCM até 24 bits/192 kHz e DSD até DSD64. Por fim, as saídas HDMI e RJ45 I2S disponibilizam sinais PCM até 32 bits/384 kHz, DoP até DSD256 e DSD «configurável» até DSD512. A entrada da alimentação do sector tem lugar através da habitual ficha Schuko, neste caso equipada com um interruptor de corte.