
Oximoro digital: o leitor de CD a válvulas da Pro-Ject CD Box RS2 Tube
Audição
Liguei o RS2 Tube directamente ao meu amplificador Rotel RA1592 por uma ligação XLR balanceada e às colunas B&W705 S2. E quando usei o RS2 Tube apenas como transporte, utilizei uma ligação TOSLINK SPDIF para o meu DAC residente, um Holo Audio CYAN 2 DAC (NOS – R2R – DSD1024). Mas na maior parte dos casos, ouvi o RS2 Tube directamente ligado ao Rotel. De qualquer forma, a utilização fez-me antecipar favoravelmente o que resultaria da utilização de um modelo parecido com este, o RS2T (sendo o T de transporte e não de Tube).

O funcionamento é intuitivo, com menus claros e uma resposta rápida aos comandos. O leitor transmite sempre a sensação de estar “sob controlo”, sem ruídos mecânicos intrusivos ou comportamentos erráticos durante a leitura dos discos.
O RS2 Tube soa muito natural e, diria, ligeiramente aveludado, com uma gama média aberta, expressiva e articulada. Em termos de palco sonoro, senti sempre muito espaço à volta dos músicos, cada instrumento com um foco e articulação nítidos. De forma geral posso dizer que o som do RS2 Tube é visceral, mas incisivo e com o detalhe analítico suficiente para uma boa discriminação dos timbres dos vários instrumentos. Mas passemos a maior detalhe.
Playlist
Cantata Colective (dir. N. McGegan) – Bach St. Matthew Passion, 3 CD Avie
Cristina Prats Costa – Spiritillo Mediterraneo, CD Pentatone
Joe Lovano – Paramount Quartet, CD ECM
Gabrielle Cavassa – Diavola, CD Blue Note
Alela Diane – Who´s Keeping Time?, CD Loose Music
Cowboy Junkies – More Acoustic Junk, CD Cook
Começando pela Clássica e pela Paixão Segundo São Mateus de Bach. A Paixão é uma obra maciça com apreciáveis massas sonoras constituídas pela orquestra, com grande variedade de instrumentos de sopros e cordas e coro. A versão de Nicholas McGegan, será tudo menos minimalista e assim a reprodução apresenta desafios consideráveis em termos de controlo, de articulação dos médios e das dimensões do palco sonoro. Ora, estas três áreas, são precisamente três das áreas em que o RS2 Tube excele. E foi muito à custa deste seu desempenho, que o RS2 Tube me cativou. Passando para a próxima gravação, Cristina Prats Costa é uma jovem violinista espanhola e o reportório que aborda nesta sua estreia é inventivo e rico, com uma combinação de violinismo e percussões animadíssima. Aqui os desafios incidiam na justeza da reprodução do timbre do violino e na precisão dos ataques das percussões. Outro bom desempenho com as válvulas a emprestar alguma suavidade à ocasional rispidez do violino.

No jazz, Joe Lovano (sax tenor) e Julian Lage (guitarra), no seu Paramount Quartet apresentam testemunho de como o Jazz é diálogo, como implica trocas equilibradas entre diferentes vozes e… swing. O som da ECM é sempre especial, escuro, envolvente, mas quase doce. Aqui o desempenho do leitor da Pro-Ject foi bom, mas senti que exagerava a doçura da gravação. Apenas um detalhe. A seguir falo-vos de Gabrielle Cavassa. Uma nova cantora de jazz italiana a fazer carreira nos EUA e a deslumbrar com interpretações inteligentes e subtis e um grão na voz que conta uma história de vida (provavelmente a nossa). Na gravação, contrasta-se música brasileira, italiana, standards e composições da própria Gabrielle, um tesouro! E cá está outra vez, a articulação dos médios e precisão a fazer maravilhas. Excelente trabalho de reprodução.
Finalmente, o folk-rock com Alela Diane num disco natural, quase rústico. Tal como a sua voz, despojada e, às vezes, um pouco agreste. Atmosfera acústica e íntima bem captada pelo leitor, E para finalizar, uma banda que aprecio há 30 anos, os Cowboys Junkies, num registo 100% acústico. As guitarras dos irmãos Timmins continuam a fazer estragos e a voz de Margo continua a enfeitiçar. Mais um registo íntimo, mais uma voz de excepção, esta quente e atenta, e mais uma reprodução de grande qualidade pelo RS2 Tube com o andar de válvulas a fazer a diferença. Sobretudo na diferenciação dos timbres e do posicionamento das várias guitarras e em veicular toda a humanidade de Margo.

Conclusão
O Pro-Ject CD Box RS2 Tube é mais um argumento eloquente que a indústria audiófila tem vindo a produzir, nos últimos anos em defesa do CD como formato de referência. Não porque seja perfeito, mas porque o conjunto das suas escolhas técnicas e sonoras resulta numa experiência que a maior parte dos streamers de alta resolução só dificilmente consegue atingir.
A combinação do DAC PCM1796 com o andar de saída com válvulas E88CC não é uma concessão à nostalgia: é engenharia aplicada ao serviço da musicalidade. O resultado é um leitor que soa bem e, acima de tudo, convida a longas audições e a redescobrir álbuns que não ouvíamos há muito tempo.
Além de que as dimensões reduzidas do leitor e a possibilidade de upgrade pela adição de uma fonte de alimentação dedicada são vantagens a ter em conta
Como pontos menos positivos, tenho a referir a ausência de suporte para SACD e, apesar das vantagens em termos de robustez do servomecanismo, temos que considerara que um toploader restringe o tipo de posicionamento do leitor num sistema de som – se ficar numa prateleira tem que ter espaço suficiente por cima para se odre abrir a tampa do transporte de CD.

A este nível de preço, a competição é feroz, mas as dimensões, a possível integração num sistema Pro-Ject e o andar de válvulas são aspectos a ter em conta.
Assim sendo, voltamos à questão inicial deste teste, será um leitor de CD, com um andar de válvulas, um oximoro ou será, afinal, a incompatibilidade entre analógico e digital, apenas uma falsa percepção? A Pro-Ject tem vindo a responder a esta pergunta, optando sempre pela segunda alternativa, tenha sido, a favor ou contra a corrente.
Resumindo, recomendo o RS2 Tube sem reservas, sobretudo a quem possua uma colecção de CD e uma cadeia de reprodução à altura, seja no presente, seja em projecto.
Para os incrédulos, uma sessão de audição deverá ser suficiente.
Leitor de CD Pro-Ject CD Box RS2 Tube
Preço 1990 €
Contacto Esotérico