
Um som quente e suave que me soou muito musical e nunca excessivo.
Os testes que se seguem foram feitos usando um Eversolo A6 Master Edition Gen 2, que funcionou ou por XLR, aproveitando a natureza balanceada de ambos os produtos, ou por USB, apenas como transporte digital, aproveitando o DAC do A3. Em ambos os casos foi usada uma atenuação de -3 dB para lidar com intersample overs, no primeiro caso usando o volume dos ESS do Eversolo, no segundo usando o Eversolo Volume Control - e também em ambos os casos foi usada, muito ocasionalmente, a equalização paramétrica do Eversolo para resolver alguns problemas não deste sistema mas dos próprios discos. Como colunas, foram usadas umas KEF LS50, verão original, e os discos escutados foram servidos pelo MinimServer (UPnP) a correr num NAS.

Para primeira audição, escolhi o disco I Will (2025, DR15, -0,21 dB, Sam First Records), do pianista Larry Goldings, a apresentar aqui o seu trio californiano, com Karl McComas-Reichl (contrabaixo) e Christian Euman (bateria) - não sei o que será mais subvalorizado, o jazz californiano, sempre preterido face a Nova Iorque, ou Larry Goldings ao piano (tendo construído quase toda a sua carreira no Hammond B3, as suas superlativas qualidades como pianistas acabaram um pouco esquecidas). Gravado ao vivo no clube Sam First (um clube de jazz recente mas muito interessante, mesmo junto ao aeroporto de LA), o disco I Will conta com uma cuidada captação e com masterização do famoso Bernie Grundman - não deixando de ter as limitações inerentes a uma gravação ao vivo, trata-se apesar disso de um disco com um bom resultado final no que toca a qualidade de som. Com uma escolha ecléctica de temas, de originais a standards, passando até por Beatles, como o nome do disco indica, logo nas primeiras notas foi possível ir percebendo que as válvulas e as polarização em Classe A no A3 não são apenas marketing - este é um amplificador com um som quente e encorpado, em que se nota imediatamente a presença desta tecnologia no seu circuito. Ao longo do solo de bateria, no final de It Ain’t Necessarly So (George Gershwin), as investidas de Euman na tarola e nos tímbales soam magnificamente aveludadas, trocando um pouco de realismo por um som muito envolvente e musical - exactamente as mesmas características se notam na introdução de piano em I Will, da dupla Lennon & McCartney, quiçá a melhor música pop alguma vez escrita, em que Larry Goldings toca a melodia na mão direita enquanto cria contrapontos, ora consonantes ora dissonantes, na mão esquerda. Já em Jesus Was a Cross Maker, de Judee Sil, com Goldings a carregar ocasionalmente bem mais forte no piano, se nota que, apesar de algum aveludamento, o A3 reproduz com bastante força esses ataques mais intensos e também as muitas variações dinâmicas aqui introduzidas pelo trio, são reproduzidas com realismo - este som mais quente e suave é portanto perfeitamente audível mas não ao ponto de colorir excessivamente a reprodução, desvirtuando-a.

Segui depois para Arehta Franklin e as edições em CD de Aretha: Lady Soul e Aretha Now, por parte da Mobile Fidelity (16/44,1, DR11, +0,29 dB), em que o som «a válvulas» do A3 me pareceu que iria combinar perfeitamente com estas gravações mais antigas. E não me enganei, foi mesmo uma boa combinação, embora tenha aqui também conseguido compreender melhor a prestação do A3 a nível espacial - com os instrumentos claramente divididos entre esquerda, centro e direita, o A3 reproduziu exemplarmente esta característica do discos, com um posicionamento bastante preciso de cada instrumento, num bom equilíbrio entre separação e coesão. Também no envolvimento emocional, componente essencial deste hobby, o A3 esteve mais do que à altura, sentindo-me sempre ligado à voz hipnotizante de Aretha - e, já agora, não estamos claro a falar de gravações exemplares, mesmo em edição MOFI, e este integrado não se revelou nada cruel com estes discos, o que por vezes acontece, e o que permite aos potenciais clientes deste amplificador poderem ouvir um leque mais alargado de música, porque muita música de grande qualidade não foi assim tão bem gravada, infelizmente.

Continuando a desafiar o A3, decidi escutar o disco de Bruce Liu Tchaikovsky: The Seasons (2024, Deutsche Grammophon, 24/192, DR12, -1,07 dB), em particular a peça The Seasons, Op. 37a: VI. June. Barcarolle, uma das minhas preferidas. Se a excelente qualidade da gravação ajuda muito, o A3 toca magistralmente o timbre do piano, ouvindo-se todos os detalhes dos ataques dos dedos do pianista canadiano. As dinâmicas, prova de fogo para muitos amplificadores, são bem reproduzidas, dentro do nível que se esperaria nesta gama de preço, com bons contrastes entre secções mais forte e mais fracas.
Para concluir, e tendo em conta a época que estávamos a atravessar durante a execução deste teste, decidi ouvir Christmas in a Minor Key (2024, 24/96, DR10, -0,38 dB) da dupla de guitarra e vozes The Milk Carton Kids, um dos grupos mais interessantes a surgir no espaço da música acústica nos últimos anos. No clássico Silent Night, gostei uma vez mais da prestação espacial do A3, com uma notável clareza na separação de vozes e guitarras e, falando até por experiência pessoal, não é nada fácil reproduzir com clareza duas vozes e duas guitarras - e também os timbres estiveram muito bem, tanto nas vozes como nas guitarras, com o tal pequeno toque de calor que já referi mais vezes. Já em The First Noel, gostei particularmente da capacidade do A3 de reproduzir os crescendos e diminuendos subtis que a música vai tendo à medida que avança.

Nos últimos tempos tenho ouvido amplificadores que, mais pormenor menos pormenor, se podem classificar como essencialmente neutros - sem nenhuma cor aparente, seja na velocidade dos transientes ou na resposta de frequência, mesmo quando estamos a falar de válvulas. Esse não é o caso do Canor - se, de um ponto de vista de resposta de frequência, não consegui notar afundamentos ou picos dignos de registo, de um ponto de vista dos timbres e transientes este é claramente um amplificador com válvulas / Classe A, com um som quente e suave que me soou muito musical e nunca excessivo - por vezes este tipo de som pode ser exagerado e «matar» os transientes, mas isso não aconteceu aqui e foi um prazer voltar a ouvir um amplificador com personalidade vincada, apesar de, como tenho escrito, a neutralidade nunca ser para mim um obstáculo ao desfrute musical, bem pelo contrário. Para além desta personalidade vincada, o A3 mostrou pormenores que me impressionaram bastante e que listo em seguida:
1) Uma excelente saída de auscultadores, com saída balanceada (XLR) e não balanceada (jack de 3,5 mm), das melhores que já ouvi até hoje e da qual ainda não tinha falado - fiz diversas sessões de escuta ao longo de várias noites, com uns Sennheiser HD 700, e se, como já disse, não tenho muita experiência nesta área, o A3 mostrou aqui uma saída de auscultadores que supera em muito a simples competência, com volume de sobra, sempre com mais do que ganho suficiente e a manter muitas das características acima mencionadas, embora, se percebi bem, a saída de auscultadores não passe por válvulas, que se encontram depois deste circuito que, com uma topologia discreta, balanceada e totalmente simétrica, debita 500 mW (30 Ω), 70 mW (300 Ω, jack de 3,5 mm) e 270 mW (300 Ω, XLR).

2) Uma entrada USB com isolamento galvânico, o que deveria ser obrigatório por lei nesta gama de preço mas que ainda é (infelizmente) uma raridade, e também muita tecnologia após esse isolamento que garantem um excelente desempenho nesta entrada - já escrevi aqui muitas vezes, e não desenvolverei outra vez este assunto para não maçar o leitor: a entrada USB, quando devidamente implementada, é a melhor entrada digital possível, pelas suas características assincrónicas. Para além do isolamento galvânico, a entrada USB (que, já agora, se trata de USB-C, o que pode ser um impeditivo para quem goste de cabos mais sofisticados) conta também com tecnologia específica de sincronização para reduzir jitter e permite receber sinais PCM 768 kHz/32bit e DSD512 (recorde-se aqui que, e ao contrário do que se lê por essa Internet fora, os ficheiros DSD não são lidos pelos ESS de forma nativa, sendo convertidos, tal como o PCM, para um formato multibit nativo)
3) Um desenho totalmente balanceado, diferencial, discreto e duplo mono, que permite não só uma excelente performance sonora mas também um som com muito corpo e muito imune a ruído, quando se precede o A3 com um componente também ele balanceado e com cabos XLR, como fiz com o Eversolo A6 Master Edition Gen 2.
4) Uma secção digital muito competente, pela inteligente escolha do uso dos ESS, os chips com melhor relação qualidade / preço nos dias de hoje e que permitem um som de excelente qualidade, mesmo quando usados dentro de um integrado, o que obriga sempre a circuitos mais simples - aqui aliás está, creio, parte do segredo do som deste A3, ao aliar o detalhe e neutralidade dos ESS a um circuito de amplificação com válvulas / Classe A menos neutro o que se traduz num resultado final do tipo «o melhor dos dois mundos».
5) Um visor enorme, com escala negativa de volume, um controlo remoto muito ergonómico e simples de usar, com regulação de volume com passos fixos de um dB e algumas opções muito práticas, como a possibilidade de atenuar as luzes do ecrã ou de eliminar entradas que não usem, para ser mais rápida a sua comutação.
6) A cada vinte vezes que se desliga o amplificador, este corre um modo Cleaner, que limpa os contactos dos relés do circuito. Fascinante…
7) As suas características de som mais quente e suave permitem longas sessões de escuta com introdução de pouca ou nenhuma fadiga auditiva.

8) De entre os vários filtros que temos à escolha, cortesia da ESS, temos um modo non-oversampling (NOS), cortesia da Canor e apelidado de «Optimal Transient». Nos últimos anos tem havido um forte regresso dos DACs NOS, seja através de DACs desenhados especificamente dessa maneira, seja «saltando» os filtros dos DACs Delta-Sigma, como é aqui o caso (na prática poderíamos chamar a este modo «pseudo NOS»). Os principais contras desta opção são a perda de algum detalhe e resolução, devido a uma significativa atenuação dos agudos (ver gráfico no link em baixo), o que neste caso acentua ainda mais as características «analógicas» do Canor, e o risco de aumento de aliasing (novamente, link em baixo) - já as principais vantagens são ausência de eco (pré ou pós) e melhoria de performance nos transientes (em inglês, ”time-domain”). Ao longo das minhas escutas com DACs, não tenho tido nunca problemas com a performance dos actuais ESS em modo oversampling (OS) e em alguns casos a atenuação de agudos dos modos NOS pareceu-me excessiva, mas neste A3 o modo “Optimal Transient” foi de longe o meu preferido, talvez porque combine particularmente bem com o som a válvulas / Classe A. Deixo em baixo uma descrição, em inglês, que a Canor me enviou deste “filtro” - e sugere-se, claro, a todos os que experimentem este A3 que testem e decidam por si próprios se preferem o modo NOS (optimal transient) ou um dos muitos filtros OS, que permitirá um som mais do tipo «o melhor dos dois mundos», como descrevi no ponto quatro.
”The Optimal Transient filter effectively bypass the DAC’s internal oversampling mode to achieve a “NOS” Non Oversampling DAC Mode As the Oversampling FIR filter is “bypassed” there is no Pre or Post ringing in the time domain – at the expense of the classic gently rolled off High Frequency response of NOS operation. Despite the risk of aliasing distortion, to my ears the Optimal Transient filer is by far my preferred “filter” - in fact I struggle to listen to any of the other Filter variants which confirms the importance of the time domain over frequency domain performance.”
NOS versus Digital Filtering DACs
What is ‘aliasing’ and what causes it?

Conclusão
Nos tudo em um, é relativamente comum sentirmos que, aqui ou ali, as marcas optam por opções competentes mas não excelentes. Não é o caso aqui, com quase todos os componentes que testei deste amplificador a comportarem-se de forma exemplar (só não tive oportunidade de testar a entrada de fono, mas será justo e lógico assumir que está o nível de tudo o resto, sendo também útil referir que se trata de um circuito completamente discreto) - sendo certo que o A3 não é barato, não será nada fácil imaginar como é que, com um orçamento idêntico e investido em separados, se chegaria a esta qualidade de som… Podemos, e devemos, interrogarmo-nos se, ao não incluir uma componente de streaming, o A3 não fica numa espécie de terra de ninguém - não é um amplificador completamente analógico mas também não é um verdadeiro all in one. No entanto, tudo isso é meramente académico - o A3 soa muito bem tanto nas entradas digitais como nas entradas analógicas, e não faltam bons (e acessíveis) transportes digitais nos dias de hoje (sendo até melhor não incluir streaming do que incluir uma implementação duvidosa, como por vezes acontece - não é nada simples, nem barato, desenvolver / manter software).
Basta então acrescentar aqui um bom transporte digital, como fiz com o Eversolo A6 Master Edition Gen 2, e umas boas colunas, e o A3 trata do resto. Não será a escolha indicada para quem busque absoluta neutralidade, ou para quem precise de mais poder para lidar com salas grandes, e / ou impedâncias / sensibilidades mais exigentes, mas para quem ache os Classe D frios e busque um cheirinho de um som a válvulas / Classe A e potência mais que suficiente para situações comuns, o A3 é um produto de audição obrigatória.
PS - Deixo aqui uma nota final de agradecimento a Ivan Bosnovic, da Canor, pelas esclarecedoras respostas que me enviou ao longo do teste - é sempre um bom sinal quando uma marca comunica activamente com quem faz os testes, nem sempre acontece, e por isso mesmo é importante relevar quando acontece.
Amplificador integrado Canor Virtus A3
Preço 5999 €
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