
Um guia para se conseguir navegar através do verdadeiro labirinto dos conteúdos de jazz no formato digital – parte 2
Eis aqui a continuação da saga em torno de como e onde encontrar as melhores edições no formato digital dos nossos discos de jazz favoritos

11) SACD da Esoteric (desde 2006)
Nos últimos vinte anos, a reputada marca de alta-fidelidade tem lançado SACDs masterizados por si, maioritariamente de música erudita. No entanto existem alguns clássicos da Blue Note (e de outras editoras de jazz) lançados pela Esoteric e, dos poucos que tenho, só questiono o ocasional excesso de compressão, de resto são boas edições, mas demasiado caras e difíceis de encontrar. Para quem não tenha grandes obstáculos financeiros e queira ouvir ainda mais uma boa masterização, são uma boa hipótese – mas há melhores masterizações, mais baratas e mais fáceis de obter.

12) SACD da Tower Records
A Tower Records chegou a ser um Golias da venda de música, com muitas lojas por todos os Estados Unidos e outros países, até que a queda da venda de música em formato físico levou esta empresa à falência (recomenda-se muito a visualização de All Things Must Pass, documentário sobre a queda desta empresa), tendo no entanto reaberto uma loja em Brooklyn em 2022. Mas isso não afectou a Tower Records japonesa, que funcionava de forma independente, e que mantém até hoje muitas lojas abertas por todo o Japão – onde o consumo de música em formato físico se mantém forte, levando inclusive os serviços de streaming a encontrar algumas dificuldades de penetração.
Ora é precisamente a Tower Records no Japão que tem editado diversos SACDs, de vários géneros, inclusive de jazz (geralmente os de jazz começam por PROZ-XXXX). Os primeiros foram editados em 2017 e dedicados à ECM (o do Koln Concert é muito bom, com remasterização de Christoph Stickel). Em 2018 foram lançados vários dedicados a John Coltrane e em 2024 começaram as edições da Blue Note, que, tal como as edições BN85 de Kevin Gray, se dedicam a celebrar os 85 anos da editora. Como de costume, a informação é dispersa, tendo lido no site da fórum de Steve Hoffman que se trata de “The latest remastering in 2024 based on DSD transferred from the US original master tape”, o que poderia indicar que novas cópias tinham sido feitas depois das de 2017 – mas é simples de verificar que os primeiros títulos são exactamente os mesmos de 2017, o que levanta logo suspeitas… e novamente o fórum de Steve Hoffman salva o dia, com alguém a dar-se ao trabalho de traduzir as notas japonesas:
“The first 13 titles, from “Art Blakey & the Jazz Messengers/Mourning” to “Herbie Hancock/Speak Like a Child,” are based on DSD masters ordered for the 2017 single-layer SACD SHM specification, and have been converted back to analog signals, then newly remastered and hybridized (the CD layer has been converted from DSD signals to 44.1kHz/16bitPCM). The remaining seven titles, from “Wayne Shorter/Juju” to “Jackie McLean/Demon’s Dance,” have been newly converted to DSD from analog master tapes stored in the USA and remastered, making these the first time they have been released on SACD.”

Portanto, estes discos são ou as transferências de 2017 em DSD ou novas transferências, convertidas novamente para analógico, remasterizadas, e novamente convertidas para DSD ou para PCM na versão de CD… Só tenho a versão de Somethin’ Else destes SACD, e soa muito bem, mas não soa melhor que a versão BN85 de Kevin Gray e creio que só justifica o esforço para aqueles que queiram muito uma nova masterização destes discos.

13) Mobile Fidelity
A par da Analogue Productions, a Mobile Fidelity tem produzido discos de vinilo e SACD/CD de grande qualidade, como os de Miles Davis ou de Frank Sinatra, dos meus preferidos da minha colecção. Curiosamente, a Mobile Fidelity tem pegado pouco em fitas da Blue Note, tendo apenas algumas edições em CD da sua “Original Master Recordings”, com prefixo UDCD-XXX, e que tendo em conta o preço que custam por estarem OOP (out of print), não creio que justifiquem a compra. Mais recentemente houve uma edição em SACD de Somethin’ Else (UDSACD 2270), que não conheço – mas tenho tido excelentes experiências com a Mobile Fidelity…

14) SACD SHM e Acoustic Sounds
Para além das edições em SACD SHM de 2017 referidas acima, existem também várias outras edições neste formato, e algumas de boa qualidade (mesmo fora do jazz), sobre as quais raramente há informação. Um bom exemplo é novamente Come Away With Me, de Norah Jones, que tem nesta versão de 2022 (UCGQ-9029) um forte concorrente à de Kevin Gray de 2012.

Infelizmente a qualidade é variável, o preço alto, e convém ir lendo umas coisas nos fóruns de Steve Hoffman para se garantir uma compra adequada. Também a Acoustic Sounds tem lançado nos últimos anos diversos SACD, alguns de boa qualidade. Para confundir mais as coisas, o prefixo UCGQ-9XXX é usado para edições BN85 em SACD, edições 2017 «flat transfer», edições Acoustic Sounds, etc… Em geral, este prefixo é um indicador de qualidade, mas é importante ter cuidado e tentar sempre ler algumas coisas nos fóruns de Steve Hoffman ou no endereço HRAudio.net.

15) UHQCD MQA
Vimos em cima que os Japoneses têm no formato UHQCD MQA a sua última obsessão, sendo possível, em teoria, com equipamento equipado para tal, descodificar alta resolução a partir de um CD. Como o que nos interessa aqui são as masterizações, ignorando o formato, apenas posso falar da edição de Sidewinder (Lee Morgan) (UCCU-40139), feita a partir de transferências recentes de fita para DSD, e que é provavelmente a melhor versão que tenho deste disco, compensando um pouco não ter sido lançado na série BN85.
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Se as restantes edições tiverem esta qualidade, são mais uma excelente opção, de entre as muitas já referidas, embora muitas não sejam da Blue Note, e identificam-se quase sempre pelos textos (ou variações):
”Reissue in Hi-Res CD format (UHQCD format x MQA technology). Uses the DSD master produced in 2020 based on the original tapes, and the master is converted in 352.8kHz/24bit high resolution (perfect for MQA-enabled audio players). Green color label coating. Comes in a slim case packaging. *The disc can also be played on regular CD players in UHQCD 44.1kHz/16bit resolution.” “Features the 2020 DSD master from the original master tapes. The master is available in 352.8kHz/24bit resolution via the MQA encoding.”

Conclusão:
Claro que há muitas outras versões que não estão aqui, especialmente edições japonesas, que abundam em quantidade, mesmo que não em qualidade. Fazendo um pequeno resumo, se comprar um disco da Blue Note que não tenha, começo sempre pelas edições BN85 de 2024, com remasterização de Kevin Gray. São o actual Santo Graal, e espero que se mantenham por muitos anos, sendo o que as McMaster foram nos anos 90 e o que as RVG queriam ter sido nos anos 2000. Pela qualidade / preço, uma versão McMaster, uma versão XRCD de Alan Yoshida ou uma edição japonesa TOCJ-4XXX ou TOCJ-15XX raramente são más opções, assim como uma versão HDtracks devidamente certificada. Pelo preço certo, as edições Analogue Productions, Esoteric, Tower Records, SACD SHM, UHQCD MQA ou Flat Transfer 2017 são óptimas opções adicionais, particularmente quando o disco em questão não está em nenhuma das primeiras opções. As opções HDTT, Blue Note 75th Anniversary CD SHM, RVG ou Collector’s Edition nunca são realmente opções dignas de consideração. Tudo isto, em minha opinião, claro.
Outras Editoras
Para concluir um artigo longo, queria apenas deixa algumas recomendações fora da órbita da Blue Note:

1) A Analogue Productions tem excelentes edições em SACD/CD de outras editoras, é só pesquisar nos seus catálogos. Alguns bons exemplos são The Blues and the Abstract Truth (Oliver Nelson) e Like Someone in Love (Ella Fitzgerald). Infelizmente, são caras e difíceis de encontrar.

2) As defuntas Audio Fidelity e DCC têm também muito boas edições de jazz, mas que são também elas difíceis de encontrar e caras de comprar. No caso da DCC, a remasterização de Steve Hoffman de Sings the Cole Porter Songbook, de Ella Fitzgerald, é magnífica.

3) Também a Esoteric conta com várias edições de jazz fora da esfera da Blue Note, destacando-se na minha colecção John Coltrane & Johnny Hartman e Ballads (John Coltrane). Uma vez mais, um pouco caras, mas por vezes justificam.

4) Como referi acima, a Mobile Fidelity tem-se dedicado a outras editoras que não a Blue Note, e conta no seu catálogo com excelentes edições em SACD/CD (inclusive fora do jazz). Destaco, novamente, as edições de Frank Sinatra e Miles Davis, na minha opinião absolutamente obrigatórias numa boa colecção de jazz – ouvir Where Are You?, de Frank Sinatra, em streaming e nesta edição MoFi é absolutamente revelador do poder que uma boa masterização tem. A edição de Kind of Blue é também muito boa, tendo só pena que tenha sido usava a remistura de Mark Wilder, em vez da mistura original.
