
Um guia para se conseguir navegar através do verdadeiro labirinto dos conteúdos de jazz no formato digital – parte 2
Eis aqui a continuação da saga em torno de como e onde encontrar as melhores edições no formato digital dos nossos discos de jazz favoritos

5) Uma editora chamada Craft Recordings tem remasterizado muitas fitas de jazz, para vinilo e digital, como vendas de ficheiros no seu site. Muitas destas remasterizações foram feitas por Kevin Gray (álbuns da Original Jazz Classics), Ryan Smith ou por Bernie Grundman (álbuns da Contemporary Records), três nomes de respeito. As versões que tenho soam muito bem e são altamente recomendadas.


6) Mantendo-me na linha dos Original Jazz Classics, este foi uma série dedicada a lançar pela primeira vez em formato digital (CD), no fim dos anos 80, discos clássicos da Riverside, Contemporary Records, Prestige, Jazzland ou Moodsville. Este série foi muito longa, e não sei se a qualidade se manteve sempre intacta, mas as edições do fim dos anos 80 e princípio dos anos 90, são muito boas, fáceis de encontrar e baratas. Os créditos da masterização vão sempre para um de três nomes: Kirk Felton, Joe Tarantino ou Phil de Lancie, que trabalhavam nos Fantasy Studios. Ao contrário das edições McMaster da Blue Note, que eram meras cópias das fitas, estes discos eram mesmo remasterizados, a partir das fitas originais, mas com muito bom gosto e quase ausência de compressão, o que resultava num excelente resultado final (não é curioso que se fizessem melhores edições digitais no fim dos anos 80 que muitas que se fazem hoje?). Um dos meus discos preferidos, Red Garland’s Piano, tem nesta edição OJC a sua melhor versão - é preciso apenas ter cuidado que algumas edições têm reverberação digital adicionada, e de forma nada subtil… (nota final: não confundir estas versões com as Original Jazz Classics Remasters, dos anos 2010, cuja qualidade é mais variável).
7) Como referido acima, os SACD da Tower Records da ECM são excelentes, e já li boas coisas sobre as edições de John Coltrane, mas não tenho experiência directa.

) Também os XRCD de Alan Yoshida abrangeram edições muito para além da Blue Note, como uma excelente edição de Quiet Kenny, de Kenny Dorham, por exemplo. São quase sempre boas compras, até porque costumam ser mais em conta - sendo necessário distinguir que ambos as siglas XRCD e XRCD24 são usados, e por vezes ainda XRCD2.
9) Tal como no caso da Blue Note, existem algumas versões em SACD SHM que soam magníficas, e sobre as quais não há nenhuma informação. Um bom exemplo são os clássicos Sunday at the Village Vanguard, de Bill Evans, edição original de 2011 (UCGO-9015) e reedição de 2014 (UCGO-9042), ou Waltz for Debby, do mesmo concerto de Bill Evans, edição original de 2011 (UCGO-9014) e reedição de 2014 (UCGO-9038), edições estas baseadas em novas transferências de fita feitas em 2011 e que batem inclusive as versões de Kevin Gray que saíram em 2023 e que contam também com versão em SACD SHM, o que mostra que encontrar uma fita em bom estado, como aconteceu aqui, é logo meio caminho andado para a coisa correr bem…

Infelizmente estas edições são caras e raras, e muitas não justificam o investimento, mas as que justificam soa mesmo muito bem. Também algumas versões UHQCD MQA, como descritas em cima, são excelentes.
10) No caso de alguns discos muito específicos, como os de Miles Davis, pode valer a pena fazer alguma investigação. Mark Wilder remisturou quase todo o seu catálogo no fim dos anos 90, com resultados pouco interessantes, na minha opinião, apesar de ser um dos meus engenheiros preferidos, e quase todas as edições pós-2000 usam essas remisturas. Kind of Blue, por exemplo – todas as versões pós-1997 usam a remisturas de Wilder. Todas as versões pré Mastersound (edição de 1994), têm um problema na fita e estão desafinadas.

Mark Wilder
A versão Mastersound é portanto a única que usa a mistura original e a fita corrigida, e apesar de soar um pouco brilhante, como é comum nas masterizações feitas com Super Bit Mapping, é provavelmente a versão que gosto mais, a par do SACD do Mobile Fidelity. Felizmente, noutros SACD de Miles, a Mobile Fidelity conseguir usar a mistura original - e tudo isto mostra que, quando há muitas versões, compensa fazer algum trabalho de casa. Outra série de discos de Miles que por vezes usa a mistura original, e até a masterização japonesa original, a preços decentes, é a Master Sound, com prefixo SRCS-9XXX – não confundir com as edições Mastersound da Sony, referida acima para Kind of Blue (eu avisei que isto era confuso).
Conclusão:
Espero que este guia ajude mais do que complique. Nunca é demais repetir a importância que as boas masterizações têm no som de um sistema – compreendo o quão prático é usar streaming, mas é simples montar um servidor num computador, ripar CDs para FLAC e desfrutar de melhor qualidade de som desta maneira, podendo inclusive fazer alguma análise aos ficheiros, para melhor aferir a sua qualidade. Em alguns casos, a comparação entre estas masterizações e as disponíveis nos streamings é gritante (noutros, não tanto), e o uso das primeiras faz um bom sistema subir logo uns patamares na infinita escada da alta-fidelidade. Boas audições!