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Audio Note OTO SE 35 Anniversary

Audio Note OTO SE 35 Anniversary

Miguel Marques

19 junho 2026

Válvulas rápidas como um Ferrari


Depois de me ter deslocado recentemente à Exaudio para uma apresentação da marca japonesa TAD, desta vez as honras couberam à Audio Note, marca inglesa sobejamente conhecida dos audiófilos, que se mantém fiel às válvulas e a outras tecnologias vintage.

Chegado à loja cascalense, encontrei um sistema quase exclusivamente constituído por produtos Audio Note: o DAC 2.1x, o integrado OTO SE 35 Anniversary, as colunas AN-K SPe, tudo isto usando cabos também Audio Note - os Isis para a potência e os Vx para as interligações. Mas, como todas as regras têm excepção, tínhamos também um transporte digital da Lumin, o U2 - e não sendo este artigo sobre a marca de Hong Kong, foi a minha terceira experiência com os seus produtos num curto espaço de tempo, e fiquei bastante impressionado. É uma marca recente para a Exaudio, e que merece atenção de todos os que buscam bons produtos no domínio digital.

Foto 1 Exaudio_Audio Note - Copy

Começando pelo integrado, o OTO SE (https://www.audionote.co.uk/oto-se), aqui na recente versão comemorativa dos 35 anos, foi alvo de uma revisão profunda, com novos componentes e um novo transformador e ainda um redesenho da placa, o que, segundo João Pina da Exaudio, se traduz em ganhos sonoros significativos (não conhecendo as versões anteriores, não posso comparar). Funcionando sempre em Classe A, este amplificador conta com uma selecção muito cuidada de componentes, e debita 8 watts a 4 ou a 8 ohms, sendo um circuito completamente a válvulas – duas ECC83 no pré-amplificador e quatro EL84 no amplificador de potência, havendo ainda uma válvula extra para os modelos com prévio de fono. Como elogio ao purismo e à coerência, não existe um controlo remoto, um excelente incentivo contra os malefícios do sedentarismo.

Quanto ao DAC 2.1x (https://www.audionote.co.uk/dac2-1x) é também ele um produto purista, em que a Audio Note considera o time-domain mais importante que o frequency-domain, desprezando assim técnicas que são standards da indústria aos dias de hoje, como oversampling, redução de jitter, noise shaping ou re-clocking. O chip escolhido é um Analogue Devices AD1865 (18Bit), que outras marcas também favorecem, um produto de 1990, já descontinuado, que funciona (parcialmente, note-se) em modo R2R. Devo admitir que tenho as minhas reservas teóricas com estas escolhas - considero a reprodução de PCM um problema resolvido aos dias de hoje, mas ainda há quem discorde… Como entradas, temos apenas RCA (S/PDIF) e XLR (AES/EBU), e como a Audio Note usa o também vintage Crystal CS8414 como receptor digital, este DAC é limitado a 24/96 - sendo que o Lumin permite fazer upsampling ou downsampling (de forma integral, note-se!), resolvendo assim o problema da reprodução de ficheiros acima de 24/96.

Foto 2 Exaudio_Audio Note - Copy

As colunas AN-K SPe (https://www.audionote.co.uk/an-k-speakers), são umas monitoras grandinhas com um woofer e um tweeter, e foram desenhadas para serem colocadas muito próximas da parece, como é comum na Audio Note. Para além de um desenho de caixa selado, com um crossover de primeira ordem e cabos internos de alta qualidade, estas monitoras contam com uma impedância nominal de 6 ohm e uma sensibilidade de 90 dB, tendo sido claramente pensadas para combinarem com amplificação a válvulas de baixa potência, como é o caso dos amplificadores da Audio Note.

Feitas as apresentações, começaram as audições - e impressionou-me rapidamente o PRaT (pace, rythm and timing) deste amplificador, uma das melhorias mais evidentes em relação ao modelo anterior, segundo João Pina. Não é incomum os amplificadores a válvulas soarem um pouco arrastados, mas este não foi o caso, com o OTO SE a mostrar transientes bastante velozes. No entanto, o baixo estava não só um pouco exagerado como pouco definido, e creio que a Audio Note sobrestima a capacidade das suas colunas de serem colocadas pertíssimo de paredes - dois pequenos afastamentos da parede produziram logo um baixo muito mais controlado e definido, afinal de contas a Física e as suas inevitáveis leis não perdoam.

Foto 4 Exaudio_Audio Note - Copy

Resolvida a questão dos graves, tive a sorte de ter a sala para mim, e pude ouvir ficheiros que trouxe de casa numa pen durante cerca de hora e meia, onde passei principalmente pelo jazz, mas também por alguma bossa nova, pop/rock e música erudita. Impressionou-me bastante o palco sonoro, largo sem perder imagem central (muito evidente em Stolen Moments, de Oliver Nelson, ou em Autumn Leaves, de Cannonball Adderley), a definição e corpo dos graves, especialmente tendo em conta que se trata de um amplificador a válvulas de baixa potência (depois do ajuste referido em cima, evidente em Cold Cold Hear, de Norah Jones, ou Detour Ahead, de Bill Evans), assim como a velocidade dos transientes em Doralice, de Getz / Gilberto, e o timbre da inigualável voz de Jeff Buckley em Lover, You Should’ve Come Over. A gama média, como sempre acontece em amplificadores a válvulas, soou maravilhosamente quente, e os agudos, como também é comum nesta tecnologia, soavam claramente atenuados, trocando realismo e detalhe por romantismo e menor fadiga auditiva.

Tendo em conta que foi uma sessão curta, não creio que se justifiquem muito mais notas auditivas - este sistema da Audio Note é um sistema fiel à filosofia da marca inglesa e que certamente agradará a todos os que gostem de válvulas, tendo a vantagem de ter um som mais rápido e directo do que é comum nesta tecnologia. Com um bom palco, um grave surpreendente para um sistema com esta electrónica, médios gloriosos e uma gama aguda suavizada e muito pouco agressiva, este sistema da Audio Note é uma boa opção para quem busque um som quente e vintage.

Foto 3 Exaudio_Audio Note - Copy

Deixo novamente uma nota para a Lumin, que me deixou muito impressionado com a qualidade de som dos seus produtos - é sem dúvida uma marca excelente no domínio digital e que (também) justifica uma ida à Exaudio. E por falar em Exaudio, espero que a loja continue com estas sessões, que pediam claramente maior atenção por parte do nosso público audiófilo…