
O sistema mais realista que ouvi até hoje, com um grau de transparência que não sabia sequer ser possível.
E houve vários outros momentos marcantes, desde (novamente) a emoção de Camané e Mário Laginha, em Com que Voz, com belíssimos transientes no piano, muito realistas, uma versão de Garota de Ipanema pela inimitável Rosa Passos, o clássico Tears in Heaven, aqui na versão Lockdown Sessions em vez da mais comum MTV Unplugged, Wynton Marsalis a homenagear Louis Armstrong (que separação entre instrumentos!), as escovas da tarola em Good Morning Little School Girl de Muddy Waters (este disco, Folk Singer, é uma escolha obrigatória em sistemas deste calibre), a massa sonora de The Astounding Eyes of Rita, de Anouar Brahem (outro disco perfeito para este sistema, como é marca da ECM), onde brilharam também os timbres da percussão e do alaúde. Poderia continuar a escrever muito mais, tal foi o número de notas que tomei no meu telefone, mas não valerá a pena maçar desnecessariamente o leitor - se posso acrescentar um elemento final é que, e contrariamente ao que senti no sistema de 2025, o nível de realismo e transparência deste sistema não é amigo de insuficiências nas gravações. Aqui ouve-se mesmo tudo, o bom e o mau, e é importante estar preparado para alimentar este sistema com gravações (e masterizações) dignas do mesmo - quando ouvi uma ou outra gravação menos conseguida, essas insuficiências são reveladas, sem apelo nem agravo.

Como nota final, gostaria de deixar uma reflexão mais pessoal sobre estas sessões da Ultimate Audio, que se realizaram pelo segundo ano consecutivo e que espero que não fiquem por aqui. É relativamente fácil, quiçá preguiçoso, ver estes eventos como uma mera demonstração de força ou show-off, em que se aluga uma sala à parte, se juntam umas quantas peças caríssimas e se tenta fazer um brilharete para impressionar audiófilos mais susceptíveis a serem impressionados e, infelizmente, creio que uma pequena parte das pessoas terá interpretado ter sido isso o que se passou no Hotel Palácio nos últimos dois anos. E posso garantir, juntando a experiência deste ano com a do ano passado, que essas ideias não correspondem em nada à verdade - existe muito sangue, suor e lágrimas por detrás destas sessões, como de todo o trabalho que a Ultimate Audio tem feito nas suas lojas, permitindo ao audiófilo comum desfrutar, mesmo que passageiramente, de sistemas e de marcas que nunca tinham estado no nosso país (é importante lembrar aqui que este sistema não repetia nenhum elemento do do ano passado, e que mesmo em termos de repertório musical, houve muitas faixas novas em relação a 2025, mostrando que se fez muito mais que repetir uma fórmula vencedora). Como escrevi atrás, a afinação da sala deste ano não foi fácil, e muitas horas de trabalho foram necessárias para que os três dias de sessões corressem tão bem como correram, e é evidente a quem acompanha a paixão do Miguel Carvalho ao longo destes dias, em que todos são bem-vindos e bem recebidos, que o objectivo é simplesmente partilhar a paixão por esta indústria e por estes produtos. É possível fazer perguntas, e por vezes até tivemos direito a «discos pedidos», e tudo se passa num ambiente de salutar informalidade, nunca se sentido nenhum elitismo.

É importante na nossa vida reconhecermos os nossos privilégios e, para todos os que gostam de alta-fidelidade, a possibilidade de nos deslocarmos uma vez por ano a uma das zonas mais bonitas da Grande Lisboa, para ouvirmos um sistema deste calibre, num hotel deslumbrante, sem pagarmos nada por isso, é um enorme privilégio que não devemos menosprezar e que devemos, aliás, agradecer (um evento desta natureza poderia perfeitamente ser fechado a clientes exclusivos, e essa escolha não foi feita). Sendo obviamente um conjunto inacessível ao comum dos mortais, a vida faz-se também de imaterialidade, como sonhos inacessíveis e memórias breves mas intensas, e os dias que passei este ano a ouvir este conjunto ficarão certamente na minha memória por muitos e bons anos, e tenho a certeza que isso acontecerá também a muitos dos que lá passaram, e que, repito, foram sempre magnificamente recebidos pelo Miguel Carvalho, cujo natural cansaço era evidente no fim da sessão de domingo. Fica aqui então este meu agradecimento à Ultimate Audio, por mais um sistema fora de série, e por nos permitir desfrutar dele de uma forma tão simples e casual, no melhor sentido de ambas as palavras. Aguardo, com incontida curiosidade, o sistema do próximo ano (e dos seguintes).
PS - Ficou prometida para breve uma nova sessão, creio que desta vez nas lojas da Ultimate no Porto e em Lisboa, com a apresentação de produtos de topo da Goldmund (uma nova marca para a Ultimate) e da Stennheim. Será, certamente, imperdível.