
O MQA finalmente reinventado (e da maneira correcta) ou a fénix renascida
Audições
O C 589 foi inserido no meu sistema habitual, formado pelo conjunto de electrónica Inspiration 1.0, da Constellation, tendo como fonte digital o Roon Nucleus Plus, alimentado pela fonte de alimentação Ferrum Hypsos, com o iFi Audio Pro iDSD como descodificador D/A e renderer de MQA (descodificação completa); e ainda o leitor de CD Accuphase DP-85, ligado ao mesmo conversor D/A da iFi Audio. No domínio analógico brilhava o gira-discos Basis com braço SME V Gold e cabeça Air Tight PC1 Supreme, sendo o prévio de gira-discos o Nagra CLASSIC Phono. As colunas eram as Diptyque DP 140MkII, e os cabos de interconexão eram predominantemente da gama Select, da Kimber, com o AudioQuest Thunderbird ligado entre o iFi Audio Pro DSD e o prévio da Constellation. Na alimentação de sector pontuava a régua Vibex Granada Platinum, à qual ligavam todos os equipamentos electrónicos em uso, sendo o amplificador de potência da Constellation alimentado através do cabo Tiglon TPL-2000A. O Silent Power LAN iPurifier Pro, acompanhado pelo cabo de Ethernet AudioQuest Cinnamon, tomou conta das ligações à Internet.

A metodologia de teste que implementei implicou que a rodagem e as primeiras audições tivessem lugar mantendo o iFi Audio Pro iDSD como conversor, isto porque uma das regras mais antigas de qualquer crítico é a de que deve fazer um número mínimo de alterações no seu sistema para poder apreciar mais claramente as diferenças notadas no seu desempenho com a chegada de um novo elemento. Utilizei a saída digital balanceada e recorri a um cabo digital de prata da linha Kimber Select. Mais tarde e tendo em conta que a esmagadora maioria dos interessados num leitor de CD desta estirpe vão utilizá-lo sozinho, ouvi-o então através das saídas analógicas balanceadas, mudando o cabo AudioQuest Thunderbird da saída do conversor da iFi Audio para a do C589.
Mas claro que não me vou pôr aqui a esmiuçar minuciosamente todas a pequenas ou menos pequenas variantes de desempenho e limitar-me-ei, de um modo muito directo, a exprimir as minhas opiniões sobre performance do NAD C 589, sem me eximir de acrescentar um ou outro aspecto de realce sempre que tal seja significativo. E ficou assim feita a prova dos nove: embora do meu ponto de vista e com base no conhecimento que tenho do meu sistema, manter o iDSD tenha sido a atitude inicial mais correcta por configurar a tal situação de produzir o mínimo de mudanças no sistema, já quem me lê seguramente que olha para a situação de um modo diferente: estará eventualmente interessado em comprar um novo leitor de CD ou mesmo apenas tenta perceber o que é que é isso do «novo MQA», por isso o conversor D/A no meio do percurso do sinal de áudio «só atrapalha». E, até certo ponto, tenho que lhe dar razão, pois os conversores D/A actuais tais como o utilizado no C 589 estão uns bons pontos acima dos que foram utilizados no iDSD Pro – outros tempos, outros sons.

E tenho que começar por dizer que este leitor de CD me agradou e muito! Tanto que não demorou muito tempo que não fosse buscar o disco Search for Eden, da Yuki Rodrigues, que na altura tanto me tinha impressionado. Conforme disse na altura, e não tenho qualquer problema em repetir, “A faixa que dá o nome ao disco é um trabalho maravilhoso de composição e interpretação com um final que nos surpreende pelo prolongamento do silêncio e de uma importância fundamental para nos fazer compreender toda a música que até ali foi tocada. Não ouvi notas nesse silêncio mas tenho a certeza de que as pressenti no meio de todos os segundos que ele dura, tal foi a impressão que Search for Eden me deixou.” E o QRONOS dá um realce à volumetria do piano, ao encadear e à vivência das notas que nos deixa totalmente rendidos até sentirmos, quase sem darmos por isso, que os tempos de suspensão das notas do «sino» quer no início quer no final da faixa 6 com a versão alongada de Search for Eden, versão alongada, ganham um destaque que só ouvindo se acredita. Não há dúvida de que o nosso grau de envolvimento emocional com a música é bem superior com o QRONO activado.
O meu recente aniversário trouxe-me como prenda, «directamente do Japão», dois CD da Blue Note, remasterizados em UHQ, de que gostei tanto que os ouvi vezes e vezes sem conta nos últimos tempos. Começo por destacar a faixa 2 do disco Further Explorations by the Horace Silver Quintet, Melancholy Mood, uma composição do próprio Horace Silver. Temos aqui um solo de grande beleza, com Horace a ter um gozo enorme a ‘conversar’ com o piano e a masterização UHQ a fornecer-nos informações preciosas sobre o modo como estavam colocados os microfones em relação ao instrumento e ao intérprete, à riqueza harmónica do mesmo e assim por diante, um verdadeiro gozo de audição e talvez uma das faixas em que foi mais perceptível a presença ou não do filtro QRONO d2a no circuito. O timing das notas, o tempo de entrada de cada um dos elementos do quinteto e a informação espacial que nos dá pistas sobre a sua localização são tão importantes para apreciarmos uma música que só quando mudamos o filtro para standard é que sentimos que sem a intervenção do QRONO a música continua a ter presença e valor mas deixa de desenvolver em nós uma boa parte das pistas emocionais tão necessárias para a sua completa fruição.
E destaco agora a faixa 1 - Arietis, do disco Ready for Freddie, o segundo dos discos que mencionei. Freddie Hubbard está decididamente do lado direito, marcando uma presença insofismável do trompete e definindo em seguida um diálogo vivo e muito agradável de seguir deste com o saxofone de Wayne Shorter, cada um deles ostentando um enorme virtuosismo mas, também, um grande respeito pelo seu parceiro. A musica ouvida assim quase que ganha uma nova dimensão! E pensar que esta é uma gravação que teve lugar originalmente em 1961 nos estúdios van Gelder! Mas que belas prendas de anos com que fui brindado!

Chegado aqui achei que era o momento ideal para passar à fase seguinte do teste - ligar o cabo Audioquest Thunderbird directamente entre a saída de áudio do 589 e a entrada do prévio da Constellation, colocando o iDSD Pro fora do circuito. E em boa hora o fiz: a espacialidade, a nitidez das notas, os timbres dos diversos instrumentos eram belíssimos, com uma naturalidade de nos deixar de boca aberta, fruto da combinação da masterização UHQ com a conversão D/A do 589 e ainda da presença do filtro QRONO d2a, o trompete de Freddie Hubbard ganhou um realce e um golpe de rins tal que pede meças a qualquer saxofone. Sempre gostei muito de Louis Armstrong mas Hubbard confere um realce tal à arte de bem tocar trompete que quase se pode dizer que escreve um novo capitulo na enciclopédia da boa execução dos instrumentos musicais!
Ouvindo a gravação ao vivo da Segunda Serenata de Brahms, com Bernard Haitink e a Orquestra Sinfónica de Londres (LSO), percebe-se desde o início que a presença do QRONOS se traduz em substância e refinamento. A apresentação desta gravação fabulosamente produzida foi musicalmente envolvente e a orquestra assume globalmente um timbre muito mais próximo do suave que do áspero, talvez devido à ausência dos violinos na instrumentação. O som da orquestra é belíssimo e cativante com uma tonalidade quente e rica. O palco espacial tem uma imponência marcante, com a presença de cada instrumento a ser destacada com bastante realce. Os graves quase que podem ser classificados como quentes e saltitantes e de toda esta saga emocionante exala uma sensação de diversão que nos cativa para ouvir mais e mais.

A finalizar, resolvi passar a um CD que tenho há uns tempos da 5ª Sinfonia de Mahler, com Simon Rattle a dirigir a Filarmónica de Berlim, primeiro com o filtro standard e depois com o QRONO activado. De forma quase milagrosa, houve um realce quase mesmerizante de algumas das características da reprodução: uma sensação de espaço mais precisa, maior separação e a percepção da sala de concertos – uma diferença nítida, sem qualquer dúvida. O que acontece exactamente na entrada da orquestra com o QRONOS activado é tão óbvio que entrada pelos ouvidos mesmo de quem não queira ouvir – uma suavidade na reprodução das cordas do naipe de violinos, um quase encantamento no modo como a percussão acompanha entra a acompanhar as cordas, tudo isto a culminar num crescendo final encantador.
Conclusão
O C 589 demonstra que o MQA finalmente foi abordado da maneira que merecia desde o principio, com um destaque dos aspectos temporais e sem alteração da resolução inicial dos conteúdos, ganhando uma universalidade que nunca teve – é agora possível inserir o QRONO em qualquer leitor de CD, conversor D/A ou mesmo serviço de streaming, com completa satisfação dos amantes e também dos detractores do formato pois é sempre possível desligá-lo ou não, conforme o ‘gosto do freguês’. O QRONOS mostra que os nossos CD que conhecemos há tantos anos têm informação de que não nos tínhamos apercebido e cumpre assim uma das funções principais de uma fonte: aumentar o nosso prazer de ouvir música. Fico agora ainda mais interessado em saber quando finalmente teremos o tão prometido serviço de streaming da Lenbrook, pois será seguramente o meio para potenciar em absoluto o MQA.
Não tenho críticas de maior a apresentar em relação à performance do C 589, só me atrevo a sugerir a inclusão de uma saída para auscultadores. Mas isto já é entrar mesmo na zona da «picuinhice»! O que tenho mesmo a confessar é que fico aguardando ansiosamente a eventual chegada de um leitor de CD da linha Masters com o QRONO incluído, embora tenha a vaga sensação de que poderá bem ser um “presente envenenado” que pode causar alguns engulhos na minha conta bancária.
Leitor de CD NAD C 589
Preço 1599 €
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