
O MQA finalmente reinventado (e da maneira correcta) ou a fénix renascida
Introdução
O MQA (Master Quality Authenticated) foi uma tecnologia – correctamente não deveria ser considerado um formato mas há muitos que dizem que o é – que desde o início foi rodeado de forte controvérsia. Primeiro porque o ficheiro MQA original, com uma resolução que na maioria dos casos é de 24 bits/96 kHz, é encapsulado num contentor para ocupar um espaço mais ou menos igual ao máximo disponível num CD normal (cerca de 700 MB); depois, porque para tal ser possível, os dois bits menos significativos do formato CD são «truncados» para se poder incluir a informação que permite ao processador de áudio fazer um «desdobramento» inicial em software cabendo, em seguida, ao descodificador / conversor D/A «desempacotar» o origami de áudio de modo a que se obtenha a resolução original do ficheiro digital, a qual pode ir desde os tais 24/96 aos 24/382. Tudo isto, fundamentalmente, para que se mantivesse a compatibilidade com a resolução do formato CD (16 bits/44,1 kHz) ou mesmo a resolução DAT, que é de 16 bit/48 kHz.

O modo como a empresa criada dentro da Meridian e o próprio Bob Stuart, o mentor do MQA, encararam as críticas, deu origem a muita discussão, publicidade negativa e assim por diante. Isto apesar de, desde 2014, muitas editoras e alguns serviços de streaming tais como o Tidal terem adoptado a tecnologia.
Em 2023 o grupo Lenbrook, que detém marcas como, por exemplo, a NAD, a PSB e a Bluesound, comprou a MQA Limited e tem passado todos estes anos a reformular o conceito, olhando para eles sob uma nova perspectiva. A ideia principal é que, num primeiro passo, a codificação MQA deixe de ser necessária, tendo para tal sido desenvolvido um novo «algoritmo» de processamento que actua, por exemplo, num leitor de CDs, antes da conversão D/A e permite melhorar os aspectos temporais da reprodução musical num sistema de áudio. A MQA Labs, a nova empresa criada pelo grupo Lenbrook, atribuiu o nome QRONO a este software de processamento e vou aqui deixar alguns excertos do «white paper» que a empresa divulgou sobre ele para uma mais completa compreensão do seu alcance:
“O QRONO aplica uma filosofia de reconstrução diferente da informação contida num ficheiro digital de áudio. Muitos DACs modernos realizam um upsampling do sinal PCM recebido antes de o transferirem para moduladores de alta velocidade. Os filtros digitais utilizados são geralmente concebidos para maximizar as especificações convencionais usadas pelos fabricantes: uma banda de passagem plana, forte supressão de imagens situadas fora do espectro audível, baixo ruído e níveis de distorção impressionantemente baixos.
Mas isso pode ter um custo no domínio do tempo. Um filtro de fase linear convencional espalha a energia de um transitório tanto para posteriormente à sua ocorrência como, de forma não natural, para antes do evento. Mesmo muitos filtros de fase mínima continuam a reverberar durante mais tempo do que o necessário, permitindo que os sinais musicais que ocorram numa grande proximidade temporal se misturem.
O QRONO parte de uma questão diferente: como podemos controlar a imagem sonora preservando os aspectos temporais da música em si?
Em vez de aplicar essencialmente o mesmo filtro genérico a todas as taxas de entrada, o QRONO utiliza filtros optimizados para o espectro musical e para cada taxa de amostragem individual. Um sinal de 44,1 ou 48 kHz recebe, portanto, um tratamento de reconstrução diferente de um com uma frequência de amostragem de 88,2, 96 ou 192 kHz. O QRONO pode substituir filtros de sobreamostragem externos, funcionar em conjunto com os filtros internos do DAC ou, em alguns casos, ser programado directamente no chip utilizado como DAC.
De um modo crucial, cada implementação é individualizada e ajustada à arquitectura de DAC específica utilizada nesse produto. Posteriormente, utiliza-se a modelação de ruído para gerir a imagem ultra-sónica de baixo nível eventualmente ainda existente e ajudar o conversor a funcionar dentro da sua gama mais linear.”
As medições incluídas neste white paper são impressionantes. No produto testado, a resposta do QRONO a 48 kHz foi cerca de duas vezes mais limpa (isenta das «reverberações» que acompanham o impulso inicial) e compacta do que a do filtro de fase mínima existente no DAC. A 192 kHz, a resposta temporal do QRONO é apresentada como sendo mesmo cerca de vinte vezes mais limpa. Estes números aplicam-se a uma implementação específica, mas ilustram claramente aquilo que a tecnologia pode alcançar.

Talvez o ponto mais importante para os entusiastas do MQA seja este: o QRONO não requer um ficheiro codificado em MQA, nem compressão ou descompressão. Funciona no lado da reprodução e pode beneficiar qualquer ficheiro PCM convencional, incluindo material com qualidade de CD, bem como ficheiros de áudio de alta resolução.
O QRONOS não corrige a «desfocagem» temporal que possa já ter sido incorporada durante a gravação — para tal precisamos de outras tecnologias do lado da fonte, como o FOQUS, ou um processamento apropriado no lado do estúdio. Mas pode impedir que o DAC adicione outra camada desnecessária de desfocagem.
Olhado de um ponto de vista imparcial, o QRONO é um dos exemplos mais claros de como a MQA Labs está a levar mais longe o pensamento original no domínio do tempo de uma forma mais aberta. Não se trata principalmente de produzir números de taxa de amostragem mais elevados. Trata-se de causar menos danos quando as amostras digitais são reconstruídas para se obter o sinal musical analógico. De certo modo, pode dizer-se que o ADN do MQA permanece, mas a ideia já não está confinada ao formato MQA, alarga-se a qualquer fabricante que a queira utilizar, com um investimento extra mínimo. Os interessados podem obter mais informação e descarregar o documento sobre o QRONO em MQA Labs_QRONO
Toda esta informação aparece a talhe de foice como resultado não só de ter participado nas sessões privadas de demonstração dos novos processamentos baseados no MQA que teve lugar durante o High-End Show de Munique de 2025, como principalmente porque tive recentemente entre mãos, durante um período bem alargado de tempo, o leitor de CQ NAD C 589, o qual integra a primeira implementação comercial do QRONOS. O bem necessário período de férias fez com que a escrita deste teste demorasse algo mais do que aquilo que eu desejaria mas, ao mesmo tempo, esse alargamento temporal na convivência com o C 589 permitiu-me olhar para ele e escutar o seu desempenho numa ampla diversidade de situações. E, no fim de tudo, a Audio e Cinema em Casa é ainda a primeira publicação a apresentar um teste do C 589 a nível mundial!
Análise técnica
Avaliado do exterior, o C 589 ostenta uma excelente construção, tendo as teclas do painel frontal um nível de actuação sólido e seguro que nos garantem que a acção foi completada. A gaveta de transporte é igualmente muito sólida, o mostrador (parece ser de tecnologia OLED) tem também uma excelente qualidade, o que permite que se leiam bem as indicações e os títulos das faixas a partir do local de audição. E, somando a tudo isto o botão de standby / ligação, temos descrito, de maneira sucinta, o «conteúdo» do painel frontal.
No que se refere à traseira, da direita para a esquerda, temos a ficha Schuko de entrada da tensão de sector, dois jacks de 3,5 mm para entrada e saída de trigger, uma ficha miniatura para efeitos de manutenção, as saídas de áudio digital para ligar a um conversor externo (XLR, RCA e óptica) e, a finalizar, as saídas de áudio analógico, duplicadas em termos de RCA e XLR (balanceadas),

Retirada a tampa, o que leva algum tempo porque os parafusos não são poucos (convém esconder o mais possível os «segredos» dos olhos e das mãos dos curiosos), fica desvendado o interior. Aí destaca-se uma fonte de alimentação comutada e a gaveta de transporte da ASATECH – por mais voltas que lhe desse não descobri a referência mas deve tratar-se do modelo 8210.B01, também usado por alguns fabricantes de renome.
Os componentes electrónicos estão dispostos num circuito impresso de alguma dimensão e aí pude comprovar que as funções globais de controlo e algum processamento de áudio estão entregues a um microcontrolador ARM Cortex STM32F469/479 com uma CPU de 180 MHz, 225 DMIPS, 2 MB de Flash e capacidades de DSP em áudio e FPU. O sinal recebido no transporte de CD entra num descodificador de áudio NXD SAA7826 CD, o qual exerce igualmente as funções de servo digital com controlo integrado do laser, obviando a necessidade de um amplificador separado para o sinal do laser. Segue-se um conversor de sobreamostragem AK4128AEQ com 8 canais.
O conversor D/A é o ES9039SPRO, da ESS, o topo de gama dos conversores de 32 bits/8 canais, na sua versão PRO. O sinal analógico segue para um conjunto de Ampops duplos de alta qualidade, baixo ruído e distorção, de entradas bipolares, com a referência SGM8261, da SG Micro. Vários outros circuitos integrados do tipo Gate Array tomam conta das funções auxiliares de controlo, destacando-se ainda a profusa utilização de reguladores locais de tensão, desde o LM117 a reguladores fixos com tensão de saída de 3,3 V de baixo ruído e baixa queda de tensão, para alimentarem os circuitos digitais.
O controlo remoto do C 589 é simples mas bastante completo. Para além das funções habituais ligadas à reprodução de discos CD, permite programar o modo de reprodução e ainda seleccionar ou não a função DDH (Dynamic Digital Headroom) um circuito que limita o pico máximo do sinal digital antes de ele chegar ao DAC, eliminando assim eventuais distorções causadas por inter-sample overs, e fazendo com que sinais musicais com tempos de subida muito rápidos, tais como os emitidos pelos pratos da bateria ou de uma orquestra sinfónica, bombo da bateria ou tímbales e mesmo picos vocais, sejam reproduzidos com superior clareza e impacte.

Por outro lado, a NAD quis tornar a vida de quem gosta de saber se o QRONOS funciona mesmo ou não, ao colocar uma tecla no controlo remoto que permite mudar do processamento QRONO para um filtro digital standard, a partir do local de audição. E esta foi decididamente uma das teclas mais úteis para mim, pois facilitou de modo evidente um amplo conjunto de audições em que comutei de um modo de funcionamento para o outro sem praticamente mexer a cabeça.
Especificações do C 589
Níveis de saída Linha (RCA): 2,2 ±0,1V
XLR (Balanceada): 4,4 ±0,2V
Saídas digitais: XLR (Balanceada): 2 - 3 Vpp 110 ohm;
Coaxial: 0,5 – 0,8 Vpp, 75 ohm
Resposta em frequência 20 Hz a 20 kHz (±0,3 dB)
Distorção harmónica total Menor que 0,005% (1kHz, LPF 20 kHz)
Relação sinal/ruído Melhor que 115 dB (1 kHz, ponderação A, LPF 20 kHz)
Equilíbrio entre canais 0,3 dB (0 dB, 1 kHz)
Separação de canais Superior a 110 dB
De-emphasis -3,73 a -5,33 dB (0 dB, 1kHz, 5 kHz)
-8,04 a -10.04 dB (0 dB, 1 kHz, 16 kHz)
Linearidade -3 ±0,1 dB (0 dB, 1 kHz at -3 dB)
-6 ±0,2 dB (0 dB,1 kHz at -6 dB)
-10 ±0,25 dB (0 dB,1 kHz at -10 dB)
-20 ±0,25 dB (0dB,1 kHz at -20 dB)
-60 ±0,5 dB (0dB, 1 kHz at -60 dB)
Consumo em espera Menor que 0,5W
Consumo em repouso Inferior a 20 W
Peso e dimensões:
Dimensões globais 435 x 83 x 294 mm
Peso 5,1 kg