
Chamem um Psiquiatra que o meu filho faz colunas de corneta:
A história de Phil Jones e as colunas Acoustic Energy AE1 40th Anniversary
Audição
O posicionamento das AE1 foi bastante fácil (a cerca de 80 cm da parede de trás e com uma distância entre as colunas de 2 m – poderia afastá-las mais se o meu ponto de audição estivesse a maior distância das colunas). A audição realizou-se a partir da amplificação do meu Rotel 1592 residente e sobretudo com o leitor SACD Denon DCD-A110 110th Anniversary Edition ligado a um DAC, o DSD Cyan 2 da Holo.

A primeira impressão é de uma energia quase física. Há uma imediatez na resposta que muitas colunas com o dobro do preço não conseguem replicar — bateria e percussão saem com um ataque seco e rápido, sem o ligeiro abrandamento ou suavização que tantas vezes se ouve em pequenos monitores. Estas não são colunas tímidas: desafiam o ouvinte a subir o volume porque quanto mais se sobe, mais coerente e controlada continuam a soar (isto dentro de um intervalo de volume muito razoável para as dimensões das colunas).
Os médios são naturais e expressivos, sem a aspereza ou a aridez que por vezes se associa a transdutores totalmente metálicos. Vozes, sejam masculinas ou femininas, surgem com presença e boa definição de texturas, sem realces artificiais na zona da presença. Já os agudos, apesar da cúpula metálica, evitam o brilho excessivo ou a dureza — são extensos e detalhados, mas com uma suavidade que convida a sessões de audição prolongadas, em vez de fatigar o ouvido.
É nos graves que a idade do conceito original mais se faz sentir, embora de forma muito mais ligeira do que seria de esperar para uma caixa deste tamanho. Há peso e textura genuínos para as dimensões da coluna, e o impacto rítmico é notável — mas quem procurar plena extensão nos graves, beneficiará de lhes associar um subwoofer. A própria Acoustic Energy reconhece isto ao desenhar a coluna para um equilíbrio tonal mais «doméstico» do que o original orientado para estúdio, e na prática isso traduz-se numa AE1 com que é mais fácil de viver no dia a dia, sem perder a assinatura rítmica e dinâmica que sempre a definiu.
A imagem estéreo é outro dos pontos fortes: a coerência entre os dois transdutores, ajudada pelo crossover de baixa ordem, traduz-se num palco sonoro amplo, bem definido em profundidade, com as colunas a «desaparecerem» fisicamente do espaço de audição — um truque que pequenos monitores bem concebidos conseguem com particular eficácia.
Playlist
Ensemble Barockin’ – Telemann Paris Quartets & Nouveaux Quators (1738), Raumklang 3 CDs
Il Gardellino, F. Heyerick (dir) – C. Graupner Sinfonias, CPO 2CDs
Scott Hamilton & Strings – The Ghost, the King and I, SACD Sound Liaison
Jan Harbeck Quartet – Conversation, CD Stunt Records
I Am with Her – Wild and Clear and Blue, CD Rounder
Angine de Poitrine – Vol. 2, CD Bonzai
Passando a uma audição mais detalhada e começando, como sempre pela música clássica. E começamos por uma das obras mais estimulantes do barroco, os Quartetos de Paris de Telemann pelos Ensemble Barockin’. Obra fluída, veloz, viva e refrescante como convém em plena onda de calor. A reprodução das AE1 foi natural, mas precisa no registo dos timbres e dos contrastes entre cordas e sopros. Uma reprodução perto de nós, mas situada num palco sonoro cheio de ar, de espaço e de luz. Grande desempenho.

Depois passamos para os Il Gardellino e à sua descoberta das sinfonias originais de Graupner, um tanto exóticas na instrumentação e com pequenas surpresas que vão revelando ao longo da interpretação. O jogo das trompetes e flautas é verdadeiramente único e as AE1 foram capazes da precisão rítmica indispensável para as surpresas e do detalhe nos agudos necessário para discriminar as travessuras dos sopros. A conjugação dos sopros com as cordas, contudo, parecia, por vezes, que ganharia em presença com uma maior extensão dos graves. Nada de invulgar numas colunas destas dimensões.
Depois o Jazz com dois saxofonistas incríveis, Scott Hamilton, o mestre absoluto do swing inteligente e cobre toda a história do Jazz e Jan Harbeck, o mestre do sussurro e do eufemismo. As AE1 souberam dar à gravação, o contraste vivo entre a orquestra e o sax de Hamilton, sem atropelos nem perda de controlo, e com toda a verdade e embalo de que necessitavam para nos proporcionar a experiência sempre nova de escutar standards imortais do Jazz e da Broadway. Jan Harbeck, subtil, insinuante, discreto. E as AE1 souberam levar-nos lá até aonde a intimidade se torna independente da presença física. Grande desempenho em termos da grande dinâmica da gravação.
No folk e rock, o trio feminino I Am with Her de Sarah Jarosz, Aiofe O’Donovan e Sara Watkins. A gravação apresenta-nos canções que falam sobre nós num registo belo, mas verdadeiro, com destaque para a grande Sarah Jarosz. Os diferentes timbres das três cantoras distinguiam-se muito bem mesmo nas harmonias, apesar de estarem longe de serem contrastantes. Mais uma vez, as AE1 apagaram-se para nos deixar ouvir o jogo das vozes e das ideias como se estivéssemos lá. E finalmente, a surpresa das surpresas, os novíssimos Angine de Poitrine, saudados por muitos como os salvadores do rock, originando imediatamente tributos em jazz e clássica! Exemplo supremo do chamado Math Rock, microtonal e polirrítmico (e de um revigorado Dadaísmo). A música dos Angine é uma música construída, camada a camada, à maneira de um cânon de Bach, que ao princípio parece divertida e dançável mas que exige foco e atenção redobrada. As AE1 não têm medo de tocar alto (e assim o fizeram em minha casa) e foi a altura em que me senti arrastado pela energia crua das AE1 para o interior da música. O acréscimo de um subwoofer poderia ser a cereja no topo do bolo, melhorando o desempenho e ultrapassando as naturais limitações inerentes a caixas acústicas de dimensões reduzidas. Mas isso já são contas de outro rosário…

Conclusão
As AE1 40th Anniversary não são um exercício de nostalgia, nem tão-pouco uma simples reedição cosmética. Representam uma reconstrução cuidadosa, quase um restauro, que preserva tudo o que tornou as AE1 originais um clássico instantâneo: a velocidade, a energia e a personalidade rítmica, ao mesmo tempo que limpa algumas das suas arestas menos sofisticadas com a tecnologia actual.
Não é, nem pretende ser, em termos absolutos a melhor coluna compacta que a Acoustic Energy sabe construir. Mas é, isso sim e sem qualquer dúvida, a melhor versão possível de uma lenda de 1987, para quem conheceu e amou o original.
Para quem simplesmente procura um monitor compacto com personalidade e energia genuínas, esta é uma proposta muito difícil de ignorar.
Como nota final podemos constatar que, afinal, até as mães, às vezes, se enganam. Não, Phil Jones nunca precisou de psiquiatras. Mas nós é que precisamos das AE1, sem engano possível.
Colunas Acoustic Energy AE1 40th Anniversary
Preço 1690 €
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