
O retorno moderno da lenda
Em teste
Nota prévia, que antecipo já: Estas Trapeze são umas grandes colunas. Também fisicamente, mas não só; nem sobretudo. São-no, então, porque reproduzem música de uma forma extraordinária. Sei bem do que falo; tive-as em casa durante um período mais alargado do que o normal, fruto de várias vicissitudes, que com elas nada tiveram que ver, o que levou a que as suas audições se tivessem subdividido em três períodos distintos. Ora, de cada vez que a elas voltei, zás, aos primeiros acordes da primeira canção do recomeço, pois lá estava aquela sonoridade que já antes me havia encantado, como que um reencontro com um velho e bom amigo, daqueles que há muito conhecemos e de quem muito gostamos.

Bom. Mas isto sou eu. E as outras pessoas que conhecem a marca, mas que estas Trapeze nunca viram nem ouviram, que farão elas perante este modelo da marca dinamarquesa? Pois recomendo que façam um exercício que não é fácil: deixar de lado o que se acha que se sabia sobre colunas Audiovector.
Por um lado, devido ao design, conforme já antes referi, dada a grande diferença na volumetria; mas isso não é suficiente.
Por outro lado, e isso é o que mais importa, devido à sonoridade. Quem já ouviu colunas das séries R (para não falar das colunas da série de entrada da marca, a série QR), irá ficar algo surpreendido quando a música começar a sair de umas Trapeze. Na verdade, eles tocam de forma algo diferente de um par de R6 ou R8, provavelmente os modelos dos quais elas estão mais próximas.
Mas será tudo diferente? Não. Reconheça-se que há semelhanças, pois estão presentes nas Trapeze muitas das principais características do ADN da Audiovector – uma mistura incomum de clareza, detalhe e dinâmica, com calor, profundidade e uma sensação de facilidade em tocar música. Só que, por um lado, nas Trapeze o grave é maior e mais forte, e há uma maior sensação de urgência na reprodução musical; por outro lado, a imagem estéreo e o palco são bem definidas mas não tão bem como acontece na série R.
No que respeita à tonalidade, as Trapeze revelaram-se bastante equilibradas, embora não a ponto de as qualificar como neutras. No entanto, esse seu sabor sonoro deliberado contribui, e de que maneira, para lhes conferir uma sonoridade e um carácter muito envolventes e muito agradáveis.
Estas colunas mostraram não ser muito exigentes quanto ao posicionamento. A Audiovector recomenda como um bom ponto de partida a sua colocação a cerca de 70 cm da parede traseira. Contudo, na minha sala elas até permitiram ser colocadas um pouco mais perto, sem grande compromisso. Não obstante, consegui os melhores resultados com as Trapeze a ficarem a cerca de 1m da parede traseira e a 60 cm das estantes que estão nas paredes laterais, conseguindo com isso um bom equilíbrio entre o peso do grave, a imagem estéreo e a tonalidade.
Tal como a Audiovector refere, confirmei que não foi necessário inclinar as colunas para dentro, o chamado toe-in, pois este já vem “built-in”, incorporado no design que faz com que a sua face frontal esteja inclinada para dentro.
Experimente-se aumentar consideravelmente o volume fornecido às Trapeze, e elas reagirão a isso com normalidade, soando com compostura e sem stress, mesmo a níveis de pressão sonora mais parecidos com os de uma discoteca do que com os de um ambiente doméstico.
Naturalmente, as Trapeze apresentam características que só poderão ser convenientemente desfrutadas numa sala já com alguma dimensão. Deram-se muito bem na minha sala de 17 m2, não muito grande, mas tratada acusticamente.
Se os seus gostos musicais vão desde o Concerto de Colónia, de Keith Jarrett, até à música techno, tocada a níveis de discoteca, passando pelo Pássaro de Fogo, de Stravinsky, ou a October, dos U2, então as Trapeze devem estar na sua lista de audições.

Pelas mesmas razões, as Trapeze RI são o completo oposto do alto-falante audiófilo que só ganha vida quando alimentado com boas gravações. Tudo o que lhe é dado a tocar é feito com alegria e vivacidade. Os graves, em particular o baixo, são mostrados sem distorção, precisos mas profundos e com muito impacto, a gama média, particularmente as vozes, respira com alegria e realismo, e os agudos são bem detalhados mas nunca são nem subjugados nem agrestes.
Nas canções de Nils Peter Molvaer, Khmer e Thlon, do CD Khmer, a batida do baixo electrónico é fortíssima, em contraponto com a grande nitidez do trompete, sendo todos os instrumentos delineados no espaço de forma exemplar. Como nunca tinha ouvido antes, o palco saía bem para fora do espaço definido pelas colunas.
Na faixa The Clap, dos Yes, no LP The Yes Album, o bater do pé no chão de madeira por parte de Steve Howe foi mais nítido do que alguma vez me tivesse apercebido. A mudança foi tal que muito mudou nesta canção; agora, esse som não só é bem percebido, como deixou de fazer parte do fundo da canção, e agora saltou para a frente, e agora é um protagonista de primeiro plano dela. Da mesma forma, no início da canção I’ve Seen All Good People, do mesmo LP, o bombo da bateria de Bill Bruford que costumava estar lá atrás, no fundo do palco, agora passou a estar bem no meio dele.
Antonio Vivaldi é visto como o mestre do concerto instrumental barroco. Os seus ritmos dinâmicos, a fluidez das melodias, os brilhantes efeitos instrumentais foram altamente influentes nos seus contemporâneos e sucessores, e atingem o seu auge nas suas Quatro Estações. Pois Max Richter desmontou estas estações e criou praticamente uma nova composição a partir das peças desconstruídas.
Recomposed by Max Richter, Vivaldi - The Four Seasons, de 2014, em CD, é para mim um disco extraordinário, que, sem que eu saiba como, está sempre a voltar a tocar no meu sistema, e também apareceu neste teste às Trapeze. Neste disco, Max - que, uma curiosidade, toca aqui um sintetizador Moog original dos anos 70, totalmente analógico - conseguiu extrair fragmentos férteis do original e remodelar os materiais em nova música, com reformas que variam substancialmente dos originais e texturas recombinadas que ressurgem com clareza e imediatismo maravilhosos.
Seja no concerto designado como Verão, como naquele designado como Inverno, a música começa com o naipe de violinos a delinear com vigor a melodia principal, após o que rapidamente se lhes junta o colectivo de violoncelos e contrabaixos. Se a correcção tímbrica, a dinâmica e a imagem 3D da música servida são notáveis, o que aqui mais me impressionou no desempenho das Trapeze foi a forma como geriram, como apresentaram o grave. Este não é mais algo que nos obriga a algum esforço para se acompanhar, pelo contrário, aqui, a música dos grandes instrumentos de cordas está em primeiro plano, com as grandes pinceladas de um pincel grosso a desenharem a grande tela a par do seu colega de cerdas mais finas. Quatro belas estações que belas continuam, maravilhosamente reinventadas pelo Mestre Max Richter, e às quais estas Audiovector Trapeze fazem jus.

Days of Future Passed (LP, Remaster 2017) é o segundo álbum de estúdio da banda inglesa de rock progressivo Moody Blues, lançado em 1967, e, revolucionário como foi, teve uma Influência tremenda nas bandas da altura. Chamar hoje em dia rock “qualquer coisa” aos Moodies pode parecer estranho, considerando a forma como a tipologia de música que a banda fez compara com o que hoje nós sabemos sobre a evolução do rock daí para cá (e não é preciso pensar em hard rock); ou seja, parece demasiado “light” para ser chamado de rock. Curioso também é quando me lembro de uma apreciação de um crítico musical da época, julgo que Pedro Pyrrait, no Expresso, sobre o 8° disco dos Moody Blues, Seventh Sojourn, lançado no final de 1972. Eu era um pré-adolescente, e isto impressionou-me de tal forma que ainda hoje o recordo. O critico não tinha gostado do disco, por razões que já não recordo (eu ainda hoje o considero muito bom, devo dizer), e o seu argumento máximo era que, oh absurdo, então não é que o LP continha uma canção chamada I’m Just a Singer (in a Rock and Roll Band)! Coisa que, sentenciava ele, os Moody Blues não eram nem nunca tinham sido. Hoje, é quase unânime que este disco, Days, se qualifica como rock sinfónico, para alguns (mal) chamado progressivo, e mesmo de um subgénero, art rock ou rock clássico, que combina pop, rock e música clássica. De facto, este disco inclui a conjugação da música da banda com a música de uma orquestra, a London Festival Orchestra, o que à data ninguém tinha feito. Por exemplo, nas canções Dawn: Dawn is a Feeling e Lunch Break: Peak Hour, a integração dos violinos, flautas e trompete com os instrumentos da banda, guitarra, baixo, bateria, mellotron e piano, é extraordinária, como nunca antes tinha ouvido. Os instrumentos bem recortados no espaço, os timbres correctíssimos, a banda em primeiro plano e a orquestra atrás, as Trapeze fizeram aqui um trabalho muito bom. O mesmo aconteceu ao evidenciar muito bem o who’s who da voz (ou vozes) em cada canção. É que os Moody Blues não encontraram paralelo nesta matéria; nenhuma outra banda contou com tantos vocalistas nas suas fileiras: todos os cinco cantavam, e todos foram lead singers em várias canções! Naturalmente, cada um deles tinha um timbre específico na sua voz, e as Trapeze não deixaram nenhuma dúvida sobre qual dos membros dos Moody Blues era responsável pela voz - ou vozes - que em cada momento se ouviam.

Com excepção das gravações de qualidade deficiente, as Trapeze têm o condão de tornar todas entendíveis as notas produzidas por uma qualquer viola baixo. Mesmo em gravações onde o baixo toca em simultâneo, nota por nota, com outros instrumentos, nomeadamente a bateria (o bombo, sobretudo), o sintetizador, e até mesmo a guitarra eléctrica. Tal aconteceu, por exemplo, (entre tantos casos) em I Know What I Like, do álbum Selling England By The Pound, dos Genesis (Qobuz, 16 / 44,1). As notas do baixo de Michael Rutherford são agora claramente perceptíveis, mesmo quando Phil Collins bate nas peles ao mesmo compasso, ou quando o sintetizador de Tony Banks desce aos registos mais graves. Nunca na minha casa e com o meu sistema tinha observado este fenómeno, não com esta dimensão. Muito agradável!
Conclusão
O design das Audiovector Trapeze RI é a primeira coisa que se observa, e exala uma qualidade excepcional a todos os níveis. É um produto de luxo que parece uma peça decorativa, de design, enquanto, como depois nos apercebemos, abriga uma grande quantidade de alta tecnologia num pacote relativamente compacto.
Estas Audiovector podem soar requintadas e sofisticadas, quando tal se lhes pede; mas dê-se-lhes uma peça de música de dança ou de rock e eles serão convincentes a tentar mostrar que são as melhores colunas especializadas nesse género que se podem encontrar.
O som das Trapeze RI apresenta graves potentes e sem coloração, médios ricos e agudos detalhados, a ponto de criarem um som coerente, rítmico e musical que se adapta a qualquer repertório e ambiente. As Trapeze impressionam não apenas pela precisão, mas também pela entrega emocional; com elas, a música emociona.
As Trapeze Ri podem manter o aspecto original das colunas trapezoidais de painel frontal largo; mas, na construção, nos acabamentos e nos altifalantes, elas são umas colunas completamente modernas. Com elas, a Audiovector conseguiu inovar: criar algo clássico e novo, ao mesmo tempo.

O tempo que passei com estas Audiovector Trapeze RI foi um grande prazer. Fui obrigado a devolvê-las; mas muito a contragosto. Queria muito ter ficado com elas. Mas os outros dois pares de colunas que já tenho não mo deixaram fazer, as malandras.
Portanto: Recomendadíssimas.
Tipologia: Coluna de chão de 3 vias com carga isobárica
Resposta em frequência 23-53 kHz
Impedância média: 8 Ohm
Impedância mínima: 6,5 Ohm a 20 kHz
Sensibilidade: 88 dB SPL a 1m para um nível de entrada de 2,83 Vrms
Distorção: menor que 0,2% THD a 90 dB SPL
Potência de pico admissível: 450 W
Frequências de corte do crossover: 500 Hz e 3000 Hz
Unidade de graves: altifalante High Power de 12 polegadas com bobina de voz de 4 polegadas
Unidade de médios: cone de 5 polegadas com íman de neodímio de alta resolução
Unidade de agudos: Audiovector SEC AMT com área de radiação de 3800 mm2
Pórticos: 2, traseiros
Bicablagem: Não
Terminais: Alta corrente cobre / latão, banhados a ouro, para bananas ou forquilhas de 4 mm
Altura x Largura x Profundidade (cm): 87,5 x 42 x 43,5
Peso: 50 kg o par
Preço 17500 €
Distribuidor Ultimate Audio
O meu sistema
Fontes
Gira discos Basis 1400, com clamp Basis, células Hana ML e Benz Micro Wood L2, braço Basis RB250 com modificação Incognito.
Leitor de CDs: Ayre Evolution Cx7e MP; streamer Aurender A-15; leitor universal DVD/SACD Cambridge Audio Azur 540D.
Amplificação
Accuphase E-4000; préamplificador de phono: Benz Lukaschek PP1 T9; NuForce Reference 8/8B, upgrade version 8.02 (monoblocos);
Colunas
Perlisten S7t, Sonus Faber Electa Amator II. Auscultadores Sennheiser HD 650, AKG 90.
Cabos
Interconexão: Tara Labs Prism 55, Straight Wire LSI Encore, Analysis Plus Solo Crystal Oval, Kimber Hero, Kimber PBJ. Cabos de coluna: Kimber Kable Carbon 8 (2,5 m) e Analysis Plus Oval 9 (2,5 m), forquilhas e bananas;
Outros: Mesa de áudio Atacama Evoque