
Energia e calor musical combinados de um modo sublime.
Audições
As KR Audio 300 B, recebidas dentro de uma bela caixa de cartão de cor vermelha, foram inseridas nos dois monoblocos Cary 805 Signature os quais foram recentemente alvo de uma renovação completa e têm estado equipados com válvulas da PS Vane. As colunas foram inicialmente as QUAD ESL 63, com um conjunto posterior de audições a ter lugar com as Diptyque DP 140MkII. O prévio era o Constellation Inspiration 1.0, e a fonte digital composta pela combinação do Roon Nucleus Plus, alimentado pela fonte de alimentação Ferrum Hypsos, com o iFi Audio Pro iDSD como descodificador D/A e renderer de MQA (descodificação completa), complementada pelo leitor de CDs NAD C589. . No domínio analógico brilhava o gira-discos Basis com braço SME V Gold e cabeça Air Tight PC1 Supreme, sendo o prévio de gira-discos o Nagra CLASSIC Phono. Os cabos de interconexão eram predominantemente da gama Select, da Kimber, com o AudioQuest Thunderbird ligado entre o iFi Audio Pro DSD e o prévio da Constellation. Na alimentação de sector pontuava a régua Vibex Granada Platinum, à qual ligavam todos os equipamentos electrónicos em uso, sendo o amplificador de potência da Constellation alimentado através do cabo Tiglon TPL-2000A. O Silent Power LAN iPurifier Pro, acompanhado pelo cabo de Ethernet AudioQuest Cinnamon, tomou conta das ligações à Internet.

Noblesse oblige, uma grande parte das audições dos monoblocos da Cary teve lugar durante alguns dias do Verão inclemente a que temos estado sujeitos, o que chegou mesmo a obrigar a abrir as janelas e até a ligar o ar condicionado uma ou outra vez. Nada a que não esteja habituado, pois já sei desde há alguns anos que as características térmicas dos amplificadores de potência a válvulas podem ser bem-vindas no inverno e mesmo na Primavera e Outono, mas não combinam assim tão bem com que as tórridas temperaturas estivais com que as alterações climáticas nos obrigam a conviver nos tempos que correm. Mas tudo vale a pena quando alma não é pequena e a substituição das 300B da PS Vane pelas da KR Audio valeu cada pequeno incómodo, recompensando-me com uma aliciante combinação de poderio instrumental e fluxo musical puro e orgânico.
Abri as hostilidades com It’s Probably Me, de Gregory Porter, um cantor apreciado por muitos mas não tanto do gosto de outros, e senti que os Cary 805S se adaptaram à tarefa em minutos, soando lindamente exuberantes e refinados, mas nunca lentos ou pesados. Em vez disso, o ritmo era extremamente preciso, combinado com uma imagem sonora e bem focada da voz de Porter.
E como se isso não bastasse para arrepiar a espinha e fazer levantar os pelos dos braços, passei a My One and Only, um dueto entre Tony Bennet e Diana Krall, uma faixa que mostrou que os Cary 805 Signature quando equipados com estas válvulas são capazes de produzir uma ampla riqueza de detalhes e definição, tudo isto banhado numa adorável calidez, bem disfarçada por detrás de uma reserva de energia que parece quase inesgotável. Havia uma generosidade bela e natural nas harmonias impecáveis e encantadoras dos dois intérpretes do mais alto nível, com tudo na mistura a soar claro e com uma presença hipnotizante, mas sem a sensação do som ser excessivamente analítico.

Mudando o estilo musical para a gravação de 2014 de Gustavo Dudamel da 3ª Sinfonia de Mahler, conduzindo a Filarmónica de Berlim, os Cary 805 encantaram instantaneamente com a sua visão ampla, calorosa e livre da interpretação. E há mesmo aquele envolvimento eivado da imponência quase mesmo de sala de concerto, graças ao peso massivo dos graves, à fabulosa mordida aveludada das cordas nos graves e aos violinos sedosos, tudo isto reforçado pela sensação de espaço e ar em redor dos intérpretes.
Apesar de debitarem um máximo de “apenas” cerca de 70 W por canal, devido a estarem equipados com uma válvula de potência 211 (pode, em alternativa, ter as 845 na saída), os Cary estavam mais que à altura de alimentar as bem exigentes Diptyque e, quando equipados com as KR Audio 300B, mostraram-se muito capazes de gerar níveis de audição realistas, ao mesmo tempo que guardavam muita energia de reserva para fornecer, se e quando necessário, crescendos musicais palpáveis e explosivos.
Esta gloriosa habilidade orquestral ficou patente na suíte instrumental The Fall of the House of Usher, dos The Alan Parsons Project, incluída no disco Tales of Mystery and Imagination, principalmente nas faixas Prelúdio e Chegada. Ouvir o conjunto destas duas faixas causa profundos arrepios, como resultado dos massivos sons de tempestade, com trovões e ruído de chuva que foram captados a partir de uma forte tempestade local. Temos assim notável presença dos graves, enquanto os detalhes refinados da execução do trabalho orquestral de Andrew Powell que pintam a atmosfera com grandes e sinistras passagens instrumentais por cima daquela sonoridade ameaçadora. Foi, ao mesmo tempo, arrepiante, emocionante e magnífico.

Equipados com as KR 00B estes amplificadores tornam-se verdadeiramente abrangentes, produzindo um som grandioso e substancial, com uma sensação muito real de ouvir mais profundamente sons maravilhosamente ricos e muito texturados, conseguindo-se mesmo distinguir vozes individuais em interpretações de largos grupos vocais. Há uma coisa chamada resposta rápida a transientes, mas aquilo que as 300B da KR Audio fazem é ainda mais que isso: quase que antecipam os transientes, tal a velocidade com que eles surgem perante o ouvinte! É como que um passe de mágica tipo Regresso ao Futuro, em que a válvula vai uns microsegundos mais adiante, traz a nota certa e reprodu-la como uma imediaticidade quase embasbacante.
A finalizar, mencionarei aqui o modo como as KR 300 B se portam com misturas densas e performances, cheias de personalidade, tais como as existentes no álbum Wish You Were Here, dos Pink Floyd, com a notável guitarra de David Gilmour em Shine On You Crazy Diamond (na faixa original, remasterizada, não aquela coisa inenarrável que foi lançada em 2019 com a sonicamente horrorosa, na maior parte dos casos, designação de “Remix”!) a espalhar-se por um palco sonoro sólido e tridimensional, graças à combinação de foco e calor. Melhor ainda, a apresentação mantém-se limpa e precisa, mesmo em volumes elevados.

Conclusão
Longe de mim dizer aqui que as 300B da KR Audio são baratas, aliás, o preço a que algo é vendido tem muito a ver com o público a que se destina. Durante toda a minha vida sempre olhei para a possibilidade de aquisição de algo do mesmo modo: primeiro vejo se tenho disponibilidade financeira para poder comprar e em seguida olho para a eventual aquisição com uma mente aberta: vou retirar dessa compra resultados suficientemente marcantes para a poderem justificar? Será o preço justo para essa fruição? Só a partir daí é que vou definir ou não a intenção de avançar para a compra.
Tudo ponderado, e em termos absolutos, tenho que considerar que as 300B trouxeram um apreciável conjunto de mais-valias para o par de amplificadores de que já tanto gostava, em termos de disponibilidade energética, presença, calidez sonora, amplitude do palco espacial, que compensam largamente o eventual investimento na sua compra, até porque tem de se ter em consideração que a sua qualidade de construção assegura um tempo de utilização bem alargado que vai seguramente muito para além da garantia de dois anos. Logo, tenho mesmo que as recomendar para todos aqueles que tenham amplificadores equipados com estas válvulas, e há por aí um bom número de equipamentos desse tipo. O prazer de audição aumenta exponencialmente, isso posso eu garantir.
Válvulas KR Audio 300B
Preço 1100 €
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