Banner LG OLED  Audio Cinema 17-07-25
Sarte Audio Out 2025
Banner vertical Imac 30-04-25
Banner Exaudio 19-08-25
Banner vertical Ultimate Fever 24
Banner vertical Imac 30-04-25
Banner Imacustica horizontal  30-04-25
Diptyque_Wadax_Gryphon
Banner Logical Design_26 Jun 24

As melhores gravações de jazz no formato digital

As melhores gravações de jazz no formato digital

Miguel Marques

3 maio 2026

Um guia para se conseguir navegar através do verdadeiro labirinto dos melhores conteúdos de jazz no formato digital – parte 1


Se no mundo do vinilo existe alguma boa informação por essa Internet fora, no mundo do digital as coisas podem ser mais confusas – uma pequena busca no Discogs ou no fórum de Steve Hoffman podem levar a dezenas de versões em CD, SACD ou ficheiros, e pode tornar-se difícil perceber como navegar neste mundo. Pretende então este guia organizar um pouco a navegação em busca de boas versões digitais de jazz, até porque uma boa masterização faz muita diferença e justifica, na minha opinião, o esforço que implica face a chegar a um serviço de streaming e simplesmente carregar Play… Mas ficam desde já avisados que este não é um caminho fácil e que a sua descrição vai ter que ser dividida em duas partes (sigam-me até ao fim e tenho a certeza que vão sentir que valeu a pena). Aqui vai então a primeira:

Blue Note:

Comecemos então pela Blue Note, certamente a editora que mais clássicos produziu neste género musical, muitos deles essenciais numa colecção de jazz.

1) Edições Ron McMaster (americanas) e primeiras edições japonesas (segunda metade dos anos 80)

Estas costumam ser as primeiras entradas no Discogs e são as primeiras edições de quase todos os discos da Blue Note, embora haja casos de álbuns que só posteriormente tiveram edição em CD.

Foto 1-Ron-McMaster-web-optimised-1000

Ron McMaster

As primeiras edições japonesas são, como habitualmente, misteriosas. Em alguns casos correspondem às edições McMaster, noutros casos são as edições McMaster masterizadas no Japão, noutras só Deus sabe. Devido ao alto preço que costumam comandar, e à incógnita sobre o que se vai receber, não recomendo em geral estas edições – até porque algumas delas contêm pre-emphasis, processo que nem todos os leitores de CD eliminam, e que é mais complicado de eliminar em CDs «ripados» para FLAC.

Quanto às edições McMaster, são, em geral, muito interessantes, por várias razões: são muito baratas, fáceis de encontrar e tratam-se não de masterizações, mas de simples transferências das fitas analógicas para digital (nas traseiras dos CDs lê-se mesmo: Digital Transfer by Ron McMaster), e isto numa altura (fim dos anos 80), em que as fitas ainda estariam quase todas em estado razoável. Tenho várias destas versões e a sua qualidade depende, basicamente, da qualidade da gravação e da fita – quando ambas são boas, o resultado é excelente (muitas vezes, no caso de discos mais obscuros da Blue Note, é mesmo a única edição digital decente). No entanto, em várias edições nota-se falta de uma masterização para digital, e os baixos anémicos são um problema recorrente – segundo percebi era comum nos anos 60 “cortar” abaixo de uma certa frequência de graves nas fitas, por vezes 50 Hz, para que estas “coubessem” nos discos de vinilo, técnica que hoje em dia, felizmente não é usada. Beneficiam, no entanto, de ausência total de compressão e outros artefactos, como NR (Noise Reduction), tão em voga noutras edições, de não se lhes ter aplicado pre-emphasis e ainda de bom headroom digital. Como nota final, é importante não confundir estas edições com as edições com as edições que Ron McMaster lançou no fim dos anos 90, princípio dos anos 2000, em que aí houve de facto remasterizações, usando muitas vezes a técnica em voga na época, o Super Bit Mapping, e cujos resultados, em geral, não são brilhantes (estes dizem mesmo Remastered by Ron Mcmaster, o que ajuda na distinção). Já agora, alguns dos discos que não foram lançados nesta série no fim dos anos 80, foram lançados no fim dos anos 90 numa série chamada Blue Note Connoisseur Series, também com boa qualidade de som.

2) Segundas Edições Japonesas (TOCJ-4XXX e TOCJ-15XX) (anos 90)

Não só muitas vezes as edições japonesas estão envoltas em grande mistério, como a qualidade de diferentes séries pode variar de forma drástica. Estas segundas edições são quase todas da primeiras metade dos anos 90 (embora algumas sejam da segunda metade), pertencem à série BN Works e têm os prefixos TOCJ-41XX ou TOCJ-15XX (atenção que a série BN Works tem outros prefixos, em edições posteriores, e muito menos aconselháveis). Em geral, estes discos têm preços razoáveis e muito boas masterizações, com muito pouca compressão e ausência de pre-emphasis, embora um pouco «escuras», com os agudos claramente reduzidos na maior parte dos casos – muito ocasionalmente existem versões que são iguais às McMaster.

Foto 2_The othe side of BN series

The BN Works 1500 Series

The BN Works 4100 Series

3) Edições RVG (primeira década dos anos 2000)

Na primeira década dos anos 2000, Rudy Van Gelder dedicou-se a remasterizar muitos dos discos que o próprio tinha gravado décadas antes – creio que as primeiras edições foram apenas para “testar as águas”, porque muitos consumidores não gostavam das versões McMaster, e o sucesso comercial foi tal que Rudy acabou por remasterizar muitos dos discos da Blue Note. Ainda hoje estes discos são abundantes, com preços muito acessíveis, sendo até comum encontrá-los nos serviços de streaming. Apesar disso, são, em geral, inenarráveis – com bastante compressão (embora haja quem ainda faça pior, como vamos ver mais à frente), Noise Reduction e técnicas afins, a redução do habitual largo som estéreo da Blue Note ao um quase mono insuportável, e a aplicação de um EQ em U, que aumenta excessivamente graves e agudos. Estas edições não são de todo recomendáveis, com uma ou outra excepção - embora os booklets que acompanham os CDs sejam magníficos (a ausência de recomendação aplica-se às edições “RVG Edition”, americanas e europeias, e às edições “24Bit by RVG”, japonesas).

Foto 3-RVG Edition


4) Edições em SACD da Analogue Productions /Acoustic Sounds (por volta de 2010, mais ano menos ano; sendo certo que a Analogue Productions vai sempre lançando ocasionalmente novas edições, o grosso dos SACD da Blue Note são desta era)

Estas edições são, das que conheço, e conheço umas quantas, excelentes – com masterizações, em geral, de Steve Hoffman e/ou Kevin Gray, e edições híbridas SACD/CD. O único problema que têm é mesmo a sua escassez, que me parece fazer parte da estratégia da Analogue Productions (e de outras editoras do género, como a Mobile Fidelity) - produção de poucas unidades, com raras reedições, a preços exorbitantes, tornam estas excelentes masterizações, infelizmente, inacessíveis à maioria. Seria óptimo que fossem disponibilizadas num site online em ficheiros FLAC, mesmo que em qualidade de CD, mas não creio que tal venha a acontecer. Se encontrar algumas edições a preço decente, é comprar sem hesitar.

Foto 4 -Analogue Productions_SACD

Analogue Productions

5) Blue Note Collector’s Edition (2010) e Blue Note, the Masterworks 75th Anniversary (2013)

A primeira série foi uma edição coreana de 2010 e a segunda séria foi um edição japonesa comemorativa dos 75 anos da Blue Note, editada em SHM-CD, com o prefixo TYCJ-81XXX. A primeira é decente, mas há muito melhores opções, e a segunda, usando as boas transferências para digital de Alan Yoshida (e Bernie Grundman, creio) em 24/192, é muito estranha: algumas edições são excelentes, outras usam uma quantidade de compressão criminosa, não sendo de todo recomendáveis – o ideal é usar a base de dados em baixo e procurar versões que tenha um DR acima de 11/12 (veja o link abaixo).

Loudness War


6) As primeiras edições em alta resolução (década de 2010, a grande maioria nos primeiros anos)

Se se pode confiar no que se lê na Internet, algures no fim dos anos 90, a Blue Note decidiu fazer cópias digitais das suas fitas analógicas em 24/192, através dos conceituado Alan Yoshida. São precisamente estes arquivos que dão origem às primeiras edições em alta resolução da Blue Note, através do site HDtracks, onde ainda hoje é possível encontrar várias (mas não todas) dessas versões – que são quase sempre as mesma que populam os serviços de streaming. Quando existem créditos de masterização (o que, infelizmente, nem sempre acontece), são atribuídos a Alan Yoshida ou a Bernie Grundman, quase sempre com muito bons resultados, embora haja vários casos em que, na minha opinião, há versões melhores. Nos casos em que há créditos de masterização, costuma também haver um PDF com capa, liner notes originais e novas liner notes, que é um excelente complemento aos FLAC. Em geral, são um compra segura.

Foto 4 - HD Tracks

HD Tracks


7) Edições em XRCD (edições JVC, maioritariamente no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, e edições Audio Wave, de 2010 até aos dias de hoje).

O mundo digital tem sido forte em novas técnicas e formatos para “melhorar” o som, muitas delas vindas do Japão – do Super Bit Mapping ao K2, dos SACD ao DVD-Audio, do DXD ao DSD, dos Plangent Processes ao MQA, e dos discos SHM aos UHQCD. Em 1995 a JVC, responsável, a par da Sony, por várias destas inovações, introduziu os XRCD (Extended Resolution Compact Disc) – ignorando as teóricas vantagens do formato, interessa aqui que muitas das edições de jazz, e consequentemente da Blue Note, foram masterizadas, e muito bem, por Alan Yoshida. Um excelente exemplo é Soul Station, de Hank Mobley, que conta com um das suas melhores masterizações na edição XRCD, já pela Audio Wave, que recuperou o formato depois da JVC e que ainda hoje ocasionalmente lança excelentes edições. Encontrando a bom preço, são quase sempre uma compra segura, embora algumas versões pudessem ter menos compressão.

Foto 5 - XRCD


8) As transferência de Robert Vosgien em 2017 de fita para DSD

Como já percebemos, é incrivelmente difícil ter informação fiável sobre muitas das edições digitais dos discos clássicos da Blue Note. Seria de assumir que, dado o preço exorbitante pedido por muitos destes formatos, que toda a informação seria prestada – mas tal não é o caso, seguindo uma longa tradição de indústria das editoras de tratar os seus clientes com um desprezo notável. Pelo que consegui perceber na Internet, com a ajuda de sites japoneses e do Google Translator, e dos fóruns de Steve Hoffman, Robert Vosgien, engenheiro de som de renome, fez novas transferências de fitas da Blue Note para digital em 2017, desta vez para DSD, creio que as primeiras desde as transferências em 24/192 do fim dos anos 90. E, pelo que percebi também, Don Was ficou surpreendido quando ouviu Mode for Joe, de Joe Henderson, pela primeira vez em estúdio, e achou o som muito diferente das versões masterizadas (pode ler isso, em parte, na entrevista em baixo ao Qobuz) e decidiu disponibilizar o som não-masterizado de algumas gravações aos clientes da Blue Note, usando para o efeito estas novas transferências de Vosgien.

Foto 6 - Don Was

Qobuz magazine - entrevista com Don Was


Isso na prática levou a uma primeira edição, em Novembro / Dezembro de 2017, em SACD SHM, com o prefixo UCGQ-90XX, de vários destes discos – sendo que várias pessoas na Internet alegam que algumas destas edições são, de facto, a nova edições de 2017 em DSD, mas que outras são meras reciclagens das versões antigas de 24/192… E, tendo em conta o preço destes SACD no mercado usado, porque a Blue Note não os reedita, o risco acaba por ser alto ao fazer uma compra.

Uma segunda edição destas transferências foi feita pela Acoustic Sounds, em 2020, em DSD64, com o título “Flat Transfers From The Original Analog Master Tapes”, ficheiros que infelizmente já não estão disponíveis (link em baixo).

Fórum Steve Hofmann

Foto 7 - Acoustic Sounds

Alguns destes ficheiros estão, no entanto, disponíveis actualmente no Qobuz, alguns infelizmente apenas em 16/44.1, outros em DSD64, e também no site da Pro Studio Masters, com alguns exemplos em baixo (e também um exemplo de um destes discos disponível para streaming no Qobuz).

Foto 8 - Soul Station_Qobuz

Qobuz - Soul Station


Foto 9 - Kenny Brurrel_Qobuz

Qobuz - Midnight Blue/Kenny Burrel


Foto 10 - Herbie Hancock_Maiden Voyage

Qobuz - Herbie Hancock/Maiden Voyage


Foto 11 - Blue Train_Qobuz

Qobuz - Blue Train/John Coltrane


Foto 12 - Eric Dolphy_Prostudiomasters

Pro Studio Masters - Out to Lunch


Foto 13 - Wayne Shorter_Qobuz

Qobuz - Speak no Evil/Wayne Shorter


E, só para finalizar estas masterizações / transferências (não é culpa minha que isto seja tão confuso), existem edições japonesas destas transferências em CD, nomeadamente UHQCD MQA, uma nova variação do CD, que só pelo nome tem de soar melhor que um CD normal. Estas edições têm como prefixo UCCU-40XXX, de uma série japonesa intitulada “High-Resolution CD Series”, e outras variações do género, e creio que todos os títulos desta série que correspondam à série em cima da Acoustic Sounds, são a transferência de 2017 para DSD, aqui em formato CD. Pode ver-se, no link em baixo, que no Discogs é claramente indicado “Features the DSD master in 2017, using US original master tapes”.

Foto 14 - UCCQ-9XXX _Discogs

Discogs - BN 85



No entanto esta informação nem sempre está presente no Discogs, como no caso em baixo, mas no site da CDJapan voltamos a encontrar a informação “Features the DSD master in 2017, using US original master tapes”. Usando o Google é possível verificar que estes títulos coincidem com as edições anteriores em ficheiro, com a excepção de Moanin, que só tinha tido edição em SACD em 2017.

Foto 15 - ee Morgan-The Sidewinder

Discogs - Lee Morgan/The Sidewinder

CD Japan - UCCU


Tenho alguns destes ficheiros e, comparando com outras masterizações, creio que em geral servem para perceber que a masterização de música não é uma conspiração de engenheiros de som para ganharem mais dinheiro, mas um passo essencial para um melhor resultado final. No entanto algumas destas edições soam mesmo muito bem, como Soul Station ou Sidewinder, e assumo que tal se deva essencialmente ao excelente estado destas fitas (de origem americana) - tenho muita curiosidade de ouvir a versão UCCU-40116 de Somethin’ Else, mas ainda não fui capaz de encontrar uma a um preço decente. As edições em ficheiro têm um preço razoável e podem justificar uma compra, até para se ter uma ideia de como soa uma fita sem masterização (embora para tal, os CDs de Ron McMaster também cumpram esse efeito, sendo muito mais baratos…).

9) Edições BN85 com masterização de Kevin Gray (2024)

Foto 16 - Discogs- Remastered by Kevin Gray

Costuma dizer-se que o melhor fica para o fim, e a Blue Note parece ter cumprido o velho adágio. Depois do desastre das edições dos 75 anos, nos 85 anos (2024), a Blue Note decide editar em UHQCD as masterizações de Kevin Gray para as séries Tone Poet e BN Classic em vinilo – e em boa hora o fez. Como qualquer amante do vinilo pode confirmar, estas edições são, em geral, fantásticas, provavelmente as melhores até hoje destes discos (em alguns casos, devido à fraca qualidade da gravação ou da fita, o delta em relação a edições anteriores é pequeno). Kevin Gray é um mestre absoluto da masterização, produzindo edições com excelentes graves (um problema crónico de muitas edições da Blue Note), um palco estéreo enorme e timbres irrepreensíveis (vale a pena pesquisar o nome dele no YouTube e ver algumas das excelentes entrevistas que deu, algumas no seu estúdio, o Cohearent Audio). Para quem compra um álbum da Blue Note pela primeira vez em digital, ou para quem não está contente com as edições que tem, aqui será sempre o sítio para começar – preços acessíveis, fáceis de encontrar, masterizações que variam entre boas e superlativas e um formato facílimo de «ripar» para FLAC e usar num servidor ou numa pen. Não deixa aliás de ser curioso que estas edições venham precisamente mostrar que uma boa masterização supera formatos ou resoluções - estes BN85, em 16/44.1, soam melhor que muitos SACD ou edições em alta resolução… Aliás, em comparação com outras masterizações, estas edições ganham quase sempre ou, no limite, são de qualidade idêntica - não me consigo lembrar de nenhum caso em que preferia outra masterização a esta (não tendo todas as 145, evidentemente).

Deixo o link em baixo para a série na sua totalidade (prefixo UCCQ-9XXX e todos os discos editados em 2024, com o símbolo BN85), que conta com 145 discos, mas que infelizmente deixou alguns dos meus discos preferidos de fora, como Soul Station (Hank Mobley), Sidewinder (Lee Morgan) ou In n Out (Joe Henderson). Nota final para notar que algumas destas edições são em SACD, mas a masterização é a mesma que a versão de CD, e que alguns CDs, como os de Chet Baker, apesar de não serem discos Blue Note, foram aqui editados.

Discogs - UCCQ-9XXX

10) HDTT

Foto 17 - HDTT

A HDTT (High Definition Tape Transfers) nasceu da obsessão de um coleccionador canadiano de fitas, cujo aborrecimento da reforma o levou a lançar este site e aí vender as suas masterizações, com base nas fitas que coleccionou (a legalidade desta operação parece-me duvidosa, mas isso não é uma preocupação dos clientes). Rushton Paul, do site Positive Feedback, dedica rasgadíssimos e hiperbólicos elogios a estes ficheiros – e ao DSD256 e DXD em geral, não apenas nesse site mas também em fóruns por essa Internet fora, como se o áudio digital ainda precisasse de ser reinventado (não precisa). Em geral, é sempre boa ideia desconfiar de marketing deste tipo e confirma-se – tenho algumas destas masterizações e soam exactamente ao que são: fitas de má qualidade, por vezes com níveis de ruído aberrantes, masterizadas por um amador, vendidas a um preço exorbitante (as próprias capas em jpg que acompanham estas edições são vergonhosas). Existem pessoas nesta indústria que sabem o que estão a fazer e que têm acesso a fitas de topo – entreguemos o nosso dinheiro a esses casos. Não recomendável.