
Do Direito ao Esquecimento ao directo ao esquecimento; ou
“Uma vez na colecção, para sempre na colecção”.
A música é um modo de vida. E um espelho da realidade. Ter a música toda nas mãos é uma alucinação, uma sensação vazia de poder. É ter todo tempo do mundo e… não saber o que fazer com ele. Os serviços de streaming são um dos brinquedos da modernidade. São também um modo muito eficaz de preencher vazios, está sempre ali a música de elevador ou o feitiço dos olhos… O conforto de não ter de escolher!
“O que vou ouvir agora”? Nesta era vintage / pós-moderna, falta enquadramento. Não tem que ver com idades ou origens. Nem com a forma como se escuta música. Em casa ou nas deslocações diárias, com maquinaria pesadas ou simples auriculares, tudo parece diluir‑se num mesmo ruído contínuo. Falta também critério: rapidamente se evoluiu de uma (quase total…) passividade na escuta de música; para o poder escolher tudo e não saber escolher. Num caso como noutro, de forma tendencialmente gratuita: das gravações caseiras antigas ao moderno streaming, o custo era / é reduzido face ao benefício. Sempre com a publicidade por perto. E agora com o algoritmo.
A forma mais actual de escutar música parece implicar o saltitar permanente e nervoso entre faixas. Entre discos, alimentando o monstro. Já quase ninguém consegue sentar-se para trás e ouvir uma obra completa, a abundância não o permite. E a fartura nem sempre é boa conselheira. É sabido que o açúcar faz mal à saúde, mas é consumido e conhecido a dependência: quanto mais se consome, mais se quer compulsivamente consumir. Mas também pode espreitar a sensação de não se estar a “aproveitar”. Se é possível aceder a milhões de faixas (esta publicidade é transversal aos provedores de serviços), insinua-se a sensação de não a estar a aproveitar.

Esta hodiernidade que se quer digna de uma inteligência artificial decente, potencia o… esquecimento. Os escutadores de música não têm hoje uma colecção de música. O algoritmo sugestiona e decide por eles. E esquece por eles. O suporte físico, permite “uma vez na colecção, para sempre na colecção”. Uma colecção virtual é… virtual. É o directo ao esquecimento. Na maioria dos casos, não permite uma organização suficiente; quanto muito, um extemporâneo “há quanto tempo não ouvia isto… já me tinha esquecido”! Ao contrário do “uma vez na net, para sempre na net”, uma vez ouvida, para sempre esquecida; em busca de mais e mais satisfação imediata, de mais dopamina a circular no cérebro. Transforma-se a escuta num gesto compulsivo. O Direito ao Esquecimento é hoje uma ânsia. À faculdade de pedir que os dados pessoais sejam apagados, contrapõe-se este apagão involuntário e maquinalmente consentido.
Dito isto, suspeito que o caminho para o desinteresse é curto. Basta ser açúcar, não tem de ser aquele bolo excepcional e que traz recordações. Ou que é raro ou de dias de festa. É impossível prestar a mesma atenção a um disco ou a cem discos. E a milhões? O encanto com UMA qualquer obra é hoje digno de um filme de ficção científica. Dos mais antigos, daqueles apenas ligeiramente bem-feitos e que são de culto para as gerações mais novas.
Desconheço se temos actualmente mais música editada. Os serviços de streaming dão essa ilusão de completude. Não me interpretem mal, a capacidade de aceder remotamente a um tesouro é extraordinária. Assim, como optar? Ter a música toda nas mãos…? Nem tanto, já consegui envergonhar alguns orgulhosos Tubes ou Spots. E isso deixa-me muito feliz.